terça-feira, 27 de agosto de 2013

CLAUDIO CARVALHO PARA JORNAL A TARDE.

DIREITO AO PAI: PSICANÁLISE E JUSTIÇA
A manhã de sol no domingo era esperada para passear na Ponta do Humaitá com minha filha Vic, às margens da Baía de Todos os Santos. Em um desses passeios, sentados nas pedras do quebra-mar, fui interpelado por Vic sobre o que ela seria quando crescesse. Surpreso com a pergunta, respondi, depois de pensar um pouco, que o que ela escolhesse para fazer seria bem feito. Ela retrucou, dizendo que eu falava aquilo porque era seu pai. Não sei se a conversa foi replicada com sua mãe, mas, certamente, e nos melhores dos casos, o diálogo seria diferente.
Explico: a função de um pai, dentre outras, é a de sustentar um discurso sobre a criança diferente da fala materna a etiquetar o corpo do pequeno sujeito quando, nos primeiros cuidados, atribui, através de um empréstimo de sentido, palavras às manifestações de choro e desconforto do bebê. Essas antecipações feitas pela mãe são cruciais para a estruturação psíquica do infans (aquele que não fala), mas devem ser relativizadas por um inter-dito paterno, como fiador terceiro nessa economia psíquica a evitar uma captura imaginária da criança nas malhas do discurso materno. Conviver com a diferença entre pai e mãe na infância é fundamental para a subjetivação. E quando os pais se separam?
Uma separação nunca é indolor, mas pode ser um momento rico para o confronto com a diferença entre pai e mãe. Neste sentido, cabe aos operadores do Direito de Família não se demitirem de suas funções quando demandados. Esse trabalho ainda deixa a desejar pela omissão em alguns casos por parte dos entes públicos, pela lentidão da justiça – ao negligenciar a assimetria existente entre o tempo da justiça e o tempo da infância – e por uma cultura arraigada que, muitas vezes, privilegia a guarda e o poder materno em detrimento da convivência entre pai e filho(a).
Aos operadores do direito fica aqui uma contribuição da psicanálise; para que o diálogo entre pai e filho(a) não seja substituído por um escrito amarelado, à deriva numa garrafa no mar da Baía de Todos os Santos, numa esperada manhã ensolarada de domingo.

Claudio Carvalho – Psicanalista, analista-membro e vice-presidente da Associação de Psicanálise da Bahia – APBa, articulista-colaborador de A Tarde, autor do livro O Educador e o Psicanalista: Um Diálogo do Cotidiano.
Texto publicado em A tarde de 10 de agosto de 2013.



terça-feira, 13 de agosto de 2013

A incapacidade de perceber o outro

Em seu livro sobre ciúmes, Eduardo Ferreira Santos, psiquiatra e psicoterapeuta, fala sobre a sociedade que perdeu a capacidade de perceber o outro. Achei isso tão interessante, mas prefiro tirar o foco da sociedade e falar de pessoas e suas relações pessoais. Existe, verdadeiramente isso, há uma reclamação exaustiva de como os casais se perdem em suas relações. Pode-se dizer que este é um fato relevante, perdeu-se a capacidade de perceber o outro. Às vezes, cada um está tão envolvido em seu mundo particular que não percebe às necessidades do mundo alheio. E assim são com amigos, ou familiares, ou com pessoas próximas que resolveram tirar suas vidas..."Em que momento eu deixei de percebê-lo?" Estamos tão envolvidos em nossos mundinhos particulares que fugiu o momento de um outro mundo tão próximo e ao mesmo tempo tão distante.