terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Narciso


A primeira aula que tive no curso de formação em psicanálise foi sobre Narcisismo. Apaixonei-me pelo tema, mas levei anos para entender porque o narcisista era ao mesmo tempo uma pessoa de baixa auto estima. Relendo o livro “Perdas Necessárias” de Judith Viorst, cheguei ao capítulo que fala sobre o narcisismo. Vou desenvolver alguns pensamentos.

Existe o narcisismo saudável que desenvolve o nosso amor próprio e, não só pelo motivo repetitivo dos livros de auto ajuda que frisam a coisa de amar a si mesmo para ser amado pelo outro, mas também porque o amor seguro pela minha própria pessoa enriquece o amor que o outro tem a me oferecer. Assim vamos eliminando as coisas que deterioram as relações: a dependência, o ciúmes excessivo, a insegurança etc etc etc. A pessoa que se sente segura com a sua imagem, que gosta do que vê no espelho, me refiro a não só a parte estética, ela tem propriedade para ir longe no campo sentimental, profissional e todos os campos da vida porque é decidido, seguro de quem realmente é e se admira por isso.

O narcisismo negativo é o narcisismo excessivo, e este excesso é usado como máscara para esconder sua baixa auto-estima, suas inseguranças. O “homem galinha” é o típico narciso (negativo), ele precisa estar com uma mulher a cada segundo para provar para si mesmo e ao mundo que ele pode, que ele consegue, que tem poderes de sedução. A pessoa que precisa “provar algo o tempo inteiro principalmente para si mesmo” são pessoas de baixa auto-estima. Normalmente estas pessoas possuem uma namorada, esposa, que têm auto estima detonada por eles, porque precisam de alguém mais fraco ao lado. Então deixam pistas das suas aventuras ou escancaram mesmo para provar para elas que não importam o que façam são BONS o suficiente para manté-las presas a relação.

“Uma ninfa bela e graciosa tão jovem quanto Narciso,chamada Eco e que amava o rapaz em vão. A beleza de Narciso era tão incomparável que ele pensava que era semelhante a um deus, comparável à beleza de DionísioApolo. Como resultado disso, Narciso rejeitou a afeição de Eco até que esta, desesperada, definhou, deixando apenas um sussurro débil e melancólico. Para dar uma lição ao rapaz frívolo, a deusa Némesis condenou Narciso a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo na lagoa de Eco. Encantado pela sua própria beleza, Narciso deitou-se no banco do rio e definhou, olhando-se na água e se embelezando. As ninfas construíram-lhe uma pira, mas quando foram buscar o corpo, apenas encontraram uma flor no seu lugar: o narciso.” ( Fonte: Wikipédia)

Como psicanalista acredito que este processo de baixa auto estima, tão comum nos consultórios, tem origem na infância. Podem ter inúmeras causas, mas faz parte do processo de criação. Mães super protetoras, fiquem atentas! Mesmo achando que estão fazendo um grande bem a seus filhos, estão criando, na verdade, indivíduos fracos, que se acham incapazes de produzir algo sozinhos, sem a supervisão de seus olhares maternos. Mas não é esta a única origem. Há ainda casos de família numerosa em que a mãe não tem como dar a devida atenção a cada filho. A mãe ausente, voluntária ou involuntariamente. Mãe-mulher que só tem olhos para o marido. Mãe-filha, ou seja, a mãe bem carente que requer muito amor e não oferece devido a um grau alto de carência e assim vão-se tecendo histórias, construindo-se os indivíduos.

Voltando nosso olhar para a teoria psicanalítica do narcisismo, Freud esclarece para nós o “narcisismo primário”. Quando criança achamos que somos o centro do mundo, insaciáveis, com todos os nossos desejos prontos para serem atendido.(O caso do “homem galinha”, descrito no parágrafo anterior, é uma espécie de regresso a este estágio.) Existe um momento em que o bebê enxerga ele e a mãe como objeto único no mundo e o único amor que conhece é por si mesmo. Ou seja, em algum momento em nossas vidas nós nos amamos e, em muitos momentos, teremos que resgatar este amor. Existem pessoas no mundo que só conhecem o amor por si mesmo, que acham que todos os seus desejos, ao menor sinal, dever ser satisfeitos. Estas pessoas não saíram da posição primária do narcisismo e, por isso precisam ser tratadas, analisadas, para que cresçam e enxerguem um mundo ao seu redor.

Quando criança nosso “eu” está em formação e, captamos pontos de identificação nos pais, nos familiares, no mundo que alcançamos – mundo este que é muito limitado, inclusive. Vamos agregando esta identificação à nossa pessoa. Por isso, muitas vezes, já adultos, identificamos como nossas atitudes com as de nossos pais com as quais, muitas vezes, nem simpatizamos. Existe um conflito em cima do que gostaríamos de ser e o que realmente somos. A análise entra aí, com todo o processo abandonamos, muitas vezes de forma dolorosa, o que julgamos não construtivo e aprendemos a apreciar o nosso “eu” bem construído, bem fincado. Quando uma pessoa esconde “o que é” porque não é bonito de se vê, é porque “o que é” precisa ser analisado(desmembrado, discutido). Precisamos nos admirar por aquilo que somos, não precisamos ser aprovado pelo outro, mas por si mesmo.

Um exemplo de personalidade não muito bem solidificada é quando se tem a atitude infantil de captar pontos de identificação nos outros, como fazemos com os nossos pais na infância. Exemplo: Com um namorado eu gosto de MPB, sou católico, e aprecio pratos picantes. O namoro acaba e com o novo namorado eu gosto de Funk, sou espírita e aprecio os pratos leves. Isso acontece muito, sinal também de baixa auto estima. Há aí uma necessidade de aceitação,o querer ser aprovado pelo mundo, estar sempre agradando. Pessoas como estas atraem sempre os narcisistas que “acham feio o que não é espelho”.

“Quando eu te encarei

Frente a frente

Não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi

de mau gosto o mau gosto

É que Narciso acha feio

o que não é espelho...” Caetano Veloso