terça-feira, 27 de julho de 2010

Origem simbiótica

Dizem, segundo lenda e mitos, que nossos corações foram divididos e a partir daí um começa a buscar o outro para ter a sensação de completude do ser. Isso é retratado em vários filmes e até historinhas reais de pessoas próximas. O livro, Jung e o tarô de Sallie Nichols*, aborda Jung, mitos, arquétipos e coisas assim. Travando um diálogo com arquétipo do tarô, pouco compreensível e que se julga muito importante, a autora questiona diante da postura tão impositiva, embora sábia e necessária do arquétipo: Se és tão importante porque é o número 2 e não um 1? E obtém como resposta que o 1 não é nada sem o 2. “Até o Todo-Poderoso ficaria impotente com um só, inclusive precisou das duas pernas do compasso para concluir sua obra, uma perna que fixa e estabiliza o seu centro e a outra que descreve a circunferência. Para fazer um todo é indispensável o dois.”

Logo, para os que pensam que a necessidade que as pessoas têm de casar ou estar com alguém, seja algo imposto pela sociedade pode estar enganado. Isso se explica não só através dos mitos, mas também através da vida real e palpável. A sociedade contribui para aumentar nossas neuras: cobra-se sempre um outro, um namoro, um casamento, cobra-se filhos, emprego, tudo para colocar a pessoa naquele quadradinho social. Mas a nossa sensação de incompletude é mais profunda, ela é reforçada pela sociedade impositiva e questionadora, embora não seja raiz de tudo, apenas o reforço. Segundo a psicanálise, a visão do bebê, nos primeiro meses de vida, é ele e a mãe como um objeto só. Na barriga da mãe ele faz parte do corpo, é uma ligação simbiótica. Segundo Lacan, quando perde o seio (objeto de desejo) a criança entende que ele e a mãe são seres diferentes. Podemos estender isso para a teoria da castração: o bebê perde o seio da mãe e se vê como ser só, partido, dividido do corpo da mãe. Depois desta separação, o que eu chamaria de primeira castração, surge à segunda castração, que é a mais clássica, quando a criança percebe que as relações parentais são amores impossíveis, assim o indivíduo sai em busca do seu complemento fora do ambiente familiar. Se esta castração foi bem feita, bem resolvida, dá-se a busca do amor saudável: vestido de sua singularidade o sujeito passa a buscar o seu objeto de desejo, caso contrário se a castração não foi feita ou mal resolvida, busca-se a imagem e semelhança dos pais. Junto com esta acontece todos os problemas que pode-se dar em relação a isso.

Aquele aconchego no colo da mãe, aquela sensação de ser um só ser... é esta a essência do amor romântico, é este o gosto que buscamos no outro: o se sentir protegido, inatingível, completo, único para o nosso objeto de desejo. O outro sacia nossos desejos, nos complementa, como foi a mãe nos primórdios da nossa existência. É esta a sensação buscada, ansiada. Aí a paixão passa, instaura-se o amor: é qundo experimentamos então a mesma sensação do bebê quando perde o seio da mãe, objeto de desejo e, descobre que não são um ser único, são dois, com suas singularidades. Passa-se a enxergar todo um mundo ao redor, onde antes só existiam eles(mãe e bebê) de forma simbiótica. Muitos se sentem frustrados, abandonados, quando o outro sai da posição simbiótica, para a posição independente do ser.

A independência não simboliza o desamor. Perceber que existe vida além do romantismo do começo simboliza justamente que o amor chegou, se instaurou, respira-se, inicia aí a parte saudável da relação. Adão e Eva não agüentaram o paraíso a dois em que viviam. A natureza humana é assim, precisa de liberdade, de um espaço. É bom ler um livro no silencio do vazio, da solidão, assistir um filme que o outro não gosta. Eu costumo falar que o segredo da relação está em ter os meus amigos, os seus amigos e os nossos. E isso se estende para o mundo que cada um vive, às vezes, é preciso estar na solidão do seu mundo e então, dentro da relação, precisa-se viver o meu mundo, o seu mundo e o nosso. Claro que tudo isso embasado na confiança e na lealdade. Este é o amor saudável, mas a confiança é alicerce porque se perdida uma vez, precisa saber ser mestre em restaurá-la ou nunca mais irá reencontrá-la.

Boa sorte a todos na busca da sua outra metade (se é que ela existe). E se desconfiarem que não foram castrados, busquem suas terapias. Assim, não se perde tempo passeando por aí procurando homens casados, problemáticos ou uma mulher dominadora, passional e, quem sabe, até muito maternal em vez de ser MULHER.


quarta-feira, 26 de maio de 2010

Registros inconscientes


Eu tenho uma profunda admiração pelo Freud, acredito que o motivo mais relevante foi ele ter trazido luz a teoria psicanalítica. Uma pessoa que enfrenta a sociedade da época para divulgar teorias tão avançadas merece o nosso respeito. Estendo também a minha admiração aos seus precursores que aprimoraram e defenderam tais teorias.
Relendo sua obra cheguei a Inibições, sintomas e angustia. Sempre me apaixono pela forma didática como publicou seus escritos, acho tudo muito bem explicado. Resolvi passar aos leitores que me dão o prazer de ler meus textos, de forma bem acessível, uma visão resumida de uma teoria psicanalítica, “O retorno do recalcado”, que seria nada mais, nada menos, que o retorno com força dobrada de significantes jogados no campo do Inconsciente, resumindo a grosso modo. Na verdade Freud reconhece que não é o inventor do “recalque”*, mas seria este o pilar da psicanálise,o seu elemento mais essencial.
Ao longo de nossa vida nos registramos os fatos de nossa história. Alguns destes fatos são jogados no Inconsciente, no lado escuro, não acessível da memória. Geralmente são coisas que gostaríamos mesmo de esquecer, deixar no escuro. Mais tarde estes registros podem vir à tona, e isso pode acontecer em uma sessão de análise através do discurso livre de idéias, nos sonhos ou como um sintoma. Por isso, fazer análise é tão difícil. A psicanálise mexe diretamente nestes conteúdos e é difícil encará-los, é como ter medo de escuro e ser obrigado a entrar em uma sala, antes escura, acender as luzes e encarar todos os monstros que não sabemos lidar, aqueles que julgávamos não conhecer, acreditávamos até que não existiam. Vamos exterminá-los? Não, diria que vamos domesticá-los, aprender a conviver com eles e entender que não são monstros, mas pedaços da gente, da nossa história e agora diante de nós com uma maturidade psíquica maior.
Quando o psicanalista finaliza um processo terapêutico ele não quer dizer que o paciente está curado, o que é cura afinal? Ao finalizar este processo, o psicanalista está dizendo ao paciente que ele tem condições de lidar com seus conteúdos, que a sua sala de monstros já está organizada e isso não impede o Inconsciente de mandar novos registros esquecidos**, mas que o paciente vai ter condições de estar em frente a eles e trabalhar esta nova e ao mesmo tempo tão antiga bagagem.
Estes conteúdos do Inconsciente podem retornar em forma de sintoma. Uma situação X desencadeia uma falta de ar, alguma coisa que seria um reflexo mais psíquico do que físico, claro que podem sinalizar de forma física mesmo, como tremores, dores no peito, sensação de formigamento, vômitos, diarréias (vários outros sintomas), mas isso, claro, sem nenhum fundamento orgânico. Acontece quando o corpo não comporta mais os tormentos psíquicos. Isso não é loucura, não é psicose, claro que pode ser, mas os neuróticos mais básicos passam pelo “retorno do recalcado”. Todos nós temos registros no Inconsciente que mais dia menos dia podem vir à tona. É essa a nossa bagagem, cada um tem uma forma de reagir diante dos acontecimentos: alguns preferem resolver ali, na hora, outros preferem jogar para debaixo do tapete.
Exemplo básico, uma criança de dois anos presencia uma cena de briga entre os pais, o pai aponta uma faca para a mãe, esta pega a criança e consegue fugir. A criança cresce com medo de faca sem entender bem porque, jogou aquela cena no inconsciente, tinha apenas dois anos. Mais tarde presenciou uma briga de bar, não estava envolvido, mas viu um puxar uma faca para o outro. Desde então tem falta de ar ao anoitecer, sente dormência nos braços e mais alguns sintomas, ou seja, seus conteúdos vieram à luz e precisam ser trabalhados, gerou uma angústia que precisa ser aliviada, extirpada.
O psicanalista nada mais é do que um grande pai e mãe, que nos ensinam a arrumar nossas malas e nos acolhem quando surge um objeto surpresa que não gostaríamos de carregar.


* Na linguagem comum, a palavra recalque designa o ato de fazer recuar ou de rechaçar alguém ou alguma coisa. –Dicionário de psicanálise, Elisabete Roudinesco e Michel Plon. ** É o que chamamos de “retorno do recalcado”, ou seja, o recalcado, o esquecido, retorna, volta a luz, ao consciente.