terça-feira, 27 de outubro de 2009

BONECAS RUSSAS

Um filme que trata da busca amorosa, um assunto inerente ao ser humano. A grande maioria dos pacientes que passam no meu divã traz como foco da análise O AMOR. Seria esta a moral da história no filme? A busca incessante e infindável do amor? Quando achamos que aquele é o último tem sempre uma bonequinha dentro da outra para mostrar a continuidade, o inesperado, o novo. Normalmente observamos dois tipos de postura em relação ao amor, em uma delas o amor atual é vivido como se fosse o último e eterno, aquela coisa que transcende a vida, a grandeza do sentimento é tanta que achamos que não cabe nada além disso. Vive-se também como se fosse o primeiro, saboreando a novidade, o encantamento de todos os começos.

Xavier, o protagonista da história, é angustiado com o fato de escrever sobre amor, mas nunca viveu isso de forma verdadeira e duradoura. Como escrever sobre algo que não foi vivenciado?

Vou me concentrar em três pontos do filme:

1º - O SOCIAL

Xavier quer apresentar uma amiga para o avô como se fosse sua noiva, não gosta da idéia do avô morrer achando que o neto nunca teve um amor de verdade. Daqui extraímos a cobrança social, que aliada a nossa cobrança pessoal, gera uma grande angustia. A princípio a sociedade que se diz tão moderna cobra um namorado(a), depois o casamento, depois o primeiro filho e, quando este nem nasceu, pergunta-se quando virá o segundo. Muitos carregam e se angustiam com estes estereótipos sociais, tentam se moldar ao que é socialmente correto e apresentável. As cobranças sociais e pessoais se aliam gerando um monstro que quase nos engole quando analisamos nossos objetivos alcançados e, pior, os não alcançados. Neste momento do filme constatamos que a busca amorosa dele não era só pessoal, ele precisava de alguém para apresentar socialmente.

2º - O AMOR REAL

Xavier tem a oportunidade de viver um amor de verdade e tudo caminha bem, mas uma nova paixão é tentadora. Neste momento ele prioriza a fantasia, a ilusão, seu brinquedo, seu troféu, alguém tão belo que parecia ser irreal (e era), deixando para traz a princesa da realidade, de carne e osso. Experimentou, pela primeira vez, o amor e descobriu que com ele temos que lidar com os nossos desejos muitas vezes contraditórios, com a insatisfação diante da estabilidade, com a tentação da infidelidade. Como é difícil atingir esse amor que tanto almejamos e como é fácil perdê-lo. A angústia, que anteriormente era pela busca do amor, muda de foco, troca de roupa, mas está sempre ali, com ou sem amor, tirando nosso sossego, a nossa paz e tranqüilidade.

3º - AMANDO AS IMPERFEIÇÕES

Minha parte preferida do filme:

“-Você é um homem perfeito. Você é a melhor coisa que me aconteceu nos últimos 26 anos. Sei que você nem sempre é perfeito, que tem problemas, defeitos, imperfeições, mas quem não tem? Eu gosto dos seus problemas, me apaixonei por seus defeitos ele são fantásticos. Sei que as mulheres adoram homens bonitos, mas elas só vêem isso. Eu não sou assim. Não vejo só a beleza, gosto de outras coisas. Gosto do que não é perfeito. Eu sou assim.”

Na verdade amamos o pacote, não tem como separar os defeitos e qualidades e amar o que nos convém, amamos o ser por inteiro e o olhar muda quando se ama. As imperfeições tornam-se belas quando compreensíveis. O amor é uma plenitude, uma magia, entendemos o outro como ser humano que nós mesmo somos passíveis de erros e acertos. É tão difícil ser Deus, é tão difícil quando somos idolatrados porque o mínimo que façamos será perdido para sempre. Bom mesmo é ser humano e ser olhado com mais compaixão diante de nosso erros e imperfeições.

Precisamos amar e ser amado para nos sentirmos mais completos? Não será isso ilusório? Teremos sempre a sensação de incompletude, mas isso nos move, nos leva para frente, faz parte da nossa trajetória. Não deixem de apreciar o filme.