quarta-feira, 27 de maio de 2009

IN TREATMENTE (EM TERAPIA)


Quem acompanha o seriado americano “in treatment” vai entender o que estou falando. Para quem não acompanha, trata-se das sessões semanais de um psicoterapeuta e seus pacientes, tendo ainda sua própria terapia semanal e algumas cenas de sua vida pessoal. Cada dia da semana é destinado a uma paciente.

No primeiro episódio temos uma noção da contratransferência com a Laura, uma paciente extremamente sedutora, que se apaixona pelo analista e tenta seduzi-lo para que este faça parte de mais uma de suas conquistas, sendo este o meu ponto de vista. Pela história de vida dela não consegui enxergar de outra forma. Como o casamento de Paul(o analista) vinha enfrentando uma crise, ele se deixou seduzir, não concretizando o ato devido à ética da sua profissão. Neste ponto ele entra em cena com Gina (sua terapeuta e mentora), expondo seus conflitos em relação a profissão e o que deve se abdicar da vida em prol desta.

Neste momento vem à tona a humanidade do terapeuta, mesmo diante daqueles fatos de vida da paciente e informações que ele tem acesso para delinear aquela personalidade, se permitiu entrar no jogo, de forma ingênua, podemos dizer, embora não sei bem se é essa a palavra que cabe. Aí ele entra no lugar comum, sai da posição de “Sujeito Suposto Saber” para fazer parte da vida do paciente, expondo suas fragilidades e se permitindo achar que “com ele será diferente”. Como telespectadora, vendo aquelas vidas de cima (ressalto, de telespectadora e não de analista), de um ângulo completamente diferente daquele visto por quem vive, não acreditei como Paul se deixou seduzir, os fatos estavam ali na sua frente e ele se tornava cada vez mais alvo fixo dela, justamente pelas dificuldades que se apresentavam. Não temos como saber se Paul seria mais uma aventura para Laura, não foi dito no final da temporada, mas eu não consigo ver diferente, mesmo porque ela não foi devidamente analisada e ficaram muitas pontas soltas, já que ela ia para o consultório para seduzir o terapeuta. Interrompeu a sua análise antes mesmo de montar as peças do quebra cabeça do seu psiquismo, que era bastante confuso.

Devido à crise de um casamento falido, a esposa de Paul também se envolveu com outra pessoa e a raiva que ele sentiu não era só o ego ferido, mas era também porque ela concretizou algo que ele gostaria de ter feito, mas não fez porque estava atado devido à ética profissional.

Eu não tenho muito apreço pela Laura, minha paciente preferida foi a Sophie, uma ginasta, mas não vou falar dela desta vez. Agora, na segunda temporada, o paciente que conseguiu despertar minha atenção foi o Walter, um senhor de bastante idade, bem sucedido profissionalmente que tem crises de pânico desde a infância. O que eu não acho legal neste seriado são dois pontos:

1- O fato dos pacientes serem sempre resistentes, sempre agressivos e, nesta segunda temporada, isso se evidencia. Isso não é uma regra na clínica da vida real, grande parte está com a predisposição para colaborar da melhor forma possível com a análise.

2- Na tentativa de expor a humanidade do terapeuta Paul é colocado numa posição muito pouco racional na sua própria terapia. Isso também fica mais evidente na segunda temporada, quando ele mostra diante da sua terapeuta, as mesmas resistências (apresentadas pelos pacientes dele) diante da sua análise pessoal. Acho que com a experiência que ele tem de mais de vinte anos deveria elaborar melhor sua postura diante de seus próprios problemas.

Essa profissão é apaixonante, falo da minha experiência como psicanalista, como é renovador tocar o outro de forma tão profunda e diferente, sacudir, fazer com que aquele diante de você se reinvente, se aceite e se transforme. Como contra partida, a cada consulta, o mesmo acontece com o analista. É um constante aprendizado, uma construção contínua na vida de ambos. Agradeço a todos os meus pacientes que estão em análise e aos que finalizaram esta.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Singularidade plural do ser-humano

"Porque será que insisto em temas complexos com títulos esquisitos? Tem sempre um sujeito em mim gritando por uma luz que descortine o mosaico colorido dos meus significantes. A percepção confusa das infinitas representações simbólicas caoticamente costuradas numa translúcida teia de estruturas fugazes de aparência sólida como uma miragem, a me levar por uma existência sem fim, implora por alguma compreensão".
Esse é o registro de um dos "meus sujeitos". Mas há outros: que desejam, que sentem, que sofrem, que agem, que tocam. Essa pluralidade de sujeitos me tornam um sujeito-sintoma singular. Um ser-humano singular.
Em geral, somos singulares pela pluralidade que nos estrutura. Pelas afetos produzidos ao longo de toda nossa existência, pelas escolhas que fazemos e deixamos de fazer, pela multiplicidade do discurso do outro que atua de maneira recíproca entre os interlocutores envolvidos, pela interdependência de todos os fenônemos que percebemos.
Mas isso pode deixar o leitor confuso. "Se eu sou vários sujeitos, existe algum entre eles que se sobressai em relação aos demais? Existe um sujeito-referência, em torno do qual os demais gravitariam?" Claro! O sujeito contido no discurso deste exato instante. Esse sujeito é construído a cada instante e a cada escolha. Ele é a expressão discursiva produzida pelo corpo, palavra ou mente nesse exato instante, nem antes, nem depois. De certa forma, somente ele existe (ex-sistere: ser para o outro). Os outros são (são para si). O primeiro é ontológico, os demais são ônticos.
No divã, o psicanalista interage com o sujeito da psicanálise, por meio da sua técnica. Esse sujeito é o produto daquele instante discursivo, naquele contexto. Ele é um fenômeno de natureza psicanalítica, parecido com um tricot feito a quatro mãos", uma vez que sua rede de significantes é tecida por meio do discurso de ambos, analista e analisando. Para esse sujeito não existem fórmulas prontas e soluções pré-fabricadas. Sua análise é individual e específica, pois ele é a expressão da singularidade discursiva do ser-humano singular deitado no divã naquele instante.
A riqueza do ser-humano singular está no caráter plural de suas possibilidades, pois a natureza do seu discurso revela um potencial aberto e criativo, inerente a infinitude deste instante.