quinta-feira, 30 de abril de 2009

Desculpem o sumiço!

Amigos(as),
Estive ausente durante os últimos dias e não trouxe nenhuma novidade para o blog. Foi mal! (rs)
Prometo algo novo na próxima semana.
Enretanto, nesse final de semana minha colega Leila vai fazer uma apresentação cujo tema é "Pai Ausente". Será o primeiro encontro do grupo "Por Dentro do Ser", aqui em Brasília, que terá o propósito de debater questões da psique humana, de uma maneira crítica e inovadora. Tenho certeza de que será um sucesso. Quem se interessar, entre em contato pelo blog!
abraços e até semana que vem.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Desejo, sujeito da psicanálise e ser-humano

Hoje pretendo fechar o raciocínio a respeito do desejo e a constituição do sujeito, que se iniciou no primeiro texto que postei.
Para isso é importante marcar com atenção, desde o início, a distinção que há entre dois conceitos diferentes e que, até a publicação desse texto, não havia sido feita de forma clara: o sujeito do inconsciente ou sujeito da psicanálise, incurável, objeto de atuação dos psicanalistas e cuja formulação, no meu modo de ver, nem sempre é clara (em tempo, apesar de prolixo, Lacan tem um pouco mais de êxito nessa tarefa do que Freud) e o "sujeito-sintoma" ou ser-humano, que sou eu, você e qualquer um andando na rua ou lendo este blog.
O primeiro se constrõe no setting psicanalítico, ou seja, no consultório. Deitado no divã, o analisando teia junta com o analista a trama linguística de inconscientes que desvela a cadeia de significantes e dá origem a esse sujeito da psicanálise. Ele é produto do fenômeno psicanalítico, do "aqui-agora" psicanalítico. Ele aparece e desaparece no discurso do Outro. O segundo é esse "ser" em relação ao qual as diversas tradições e filosofias apresentam formulações e teorias sobre sua natureza e constituição e que, no meu modo de ver, não está restrito ao discurso do campo psicanalítico. Apesar de identificar muitos pontos de convergência com ele (discurso psicanalítico), parto da premissa de que o ser-humano não é simplesmente o resultado do discurso do Outro. Particularmente, acredito que sua natureza seja vacuidade, claridade e não-obstrução. Nada impede que cada psicanalista tenha a sua versão íntima sobre a natureza do ser-humano. Entretanto, isso não interfere, ou melhor, não deve interferir diretamente na aplicação da técnica psicanalítica, pois o objeto sobre o qual o psicanalista atua é o sujeito da psicanálise.
Pois bem. Tal distinção não aparece tão clara nos textos psicanalíticos dos autores trazidos nas últimas semanas. Na ânsia de encontrarem fundamentos para para uma pretensiosa teoria geral sobre o sujeito, que vai além da teoria psicanalítica (enquanto técnica para lidar com os sintomas do sujeito da psicanálise), os autores se referem a um e outro sem fazerem distinções. Nesse sentido, ao tratarem de questões envolvendo o ser-humano, os grandes formuladores do discurso psicanálitico, Freud e Lacan, fazem coro ao afirmar a impossibilidade de supressão do desejo como possibilidade para a cessação plena do sofrimento.
Enquanto psicanalista, inclino-me para a noção de que o sujeito da psicanálise está inserido num universo de desejo e que se estrutura no campo da linguagem, a partir da relação dual com o outro, marcada pelo instinto libidinal de ser. É essa pulsão que torna possível a vida e que sustenta a farsa dos nossos sentidos e a tirania dos seus desmandos. Apesar de acreditar que a essência do ser-humano é ilimitada, ou seja, vai além das categorias psicanalíticas, sob uma perspectiva relativa, o desejo lhe é estruturante e a tentativa de arrancá-lo, na enorme maioria dos casos com os quais nos deparamos no nosso dia-a-dia, acarretaria muito mais problemas do que soluções. De outro lado, isso não significa, necessariamente, que o ser-humano seja incapaz de transformar o desejo, como o propósito de cessação plena do sofrimento, como propõem certas tradições e filosofias orientais, fato que este que abriria uma possibilidade ainda nova para o pensamento ocidental sobre como lidar com os sintomas da humanidade ou, ainda, de maneira mais ousada, como lidar com o próprio ser-humano. Nas diversas passagens colhidas ao longo dos textos anteriores, ficou clara a superficialidade com que Lacan e Freud trataram da "ascese da disciplina do prazer tibetana" e das "técnicas orientais hinduistas e de yoga" para lidar com o desejo, respectivamente. Diferente da teoria psicanalítica, que possui pouco mais de um século de existência, tratam-se de sabedorias milenares e que exigiriam uma abordagem bastante aprofundada, caso se pretendesse refutar suas proposições.
Diante de tais constatações, pode-se afirmar que as formulações acerca do ser-humano, que invariavelmente se confundem no discurso psicanalítico desses autores com a constituição do sujeito da psicanálise, contêm categorias estruturadas a partir de um universo simbólico de origem grega e judaico-cristã, inegavelmente vinculado a uma perspectiva ocidental. Uma das razões para isso é o fato de que tais formulações se fundamentam na experiência da clínica psicanalítica, cujo campo de atuação é quase exclusivamente marcado por raízes culturais judaico-cristãs. Outro razão está nos influxos da mitologia grega e da filosofia ocidental sobre seu arcabouço teórico. Ora, é preciso registrar que a psicanálise é, em síntese, uma técnica para lidar com os sintomas do sujeito da psicanálise. Sua competência nessa missão é inegável e sua pretensão não vai e não deve ir além disso. Entretanto, quando se pretende uma formulação universal sobre o ser-humano deve-se abandonar a perspectiva etnocentrista e buscar uma experiência que não se restrinja à psicanalítica.
Com essas considerações espero ter desfeito alguns dos "nós" que embolavam as afirmações dos meus primeiros textos. Será?
Semana que vem pretendo trazer algo novo. Até lá!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Desejo e sublimação 2

Como eu disse na semana passada, Freud também tratou da questão da sublimação do desejo, mas para encontrá-la em seu texto O Mal-Estar da Civilização farei um percurso mais extenso pelos seus argumentos. Mas não se preocupem, pois esse caminho é extremamente interessante para o debate que proponho.
Freud inicia o referido texto às voltas com uma inquietante colocação feita por um amigo (Romain Rolland), a respeito da fonte da religiosidade, que seria experimentada por milhões de pessoas. Trata-se de um "sentimento oceânico" compreendido por Freud como sendo um sentimento de vínculo indissolúvel, de ser uno com o mundo externo como um todo.
Na sua experiência ele (Freud) não conseguiu se convencer da natureza primária desse sentimento reconhecendo, todavia, que isso não lhe daria o direito de negar que ele de fato ocorra em outras pessoas. Diante dessa situação, ele propõe uma explicação psicanalítica para essa questão.
Ao debruçar-se para melhor apreciação do tema, Freud se remete às fases primitivas da constituição do sujeito, na qual a criança recém-nascida ainda não distingue seu ego do mundo exterior. Essa seria a posição esquizoparanóide, assim definida por Melanie Klein, marcada pela presença do objeto fusional mãe-bebê. O "sentimento oceânico", então, estaria associado a uma fase primitiva do sentimento do ego o que, na visão de Freud, afastaria o direito de ser uma fonte das necessidades religiosas. Ele, entretanto, vai além, deixando uma dica a respeito do papel de Deus, ao tratar do desamparo experimentado pelo bebê nos seus primeiros dias da infância. Aterrorizado pelo medo do "poder superior do Destino" Freud afirma: "Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai". Ele encerra sua argumentação reconhecendo que pode haver algo mais por trás disso, mas, presentemente, "ainda, está envolto em obscuridade".
Pois bem, seguindo a respeito do papel da religião, Freud atribui a ela a possibilidade de respostas para a questão mais complexa de todas: o propósito da vida. Entretanto, para evitar o confronto com o tema de tamanha magnitude, pois esse não parece ser seu objeto de elaboração, Freud ajusta a questão para algo mais tangível a sua técnica. O que os homens pedem da vida e o que desejam realizar? Ele, então responde, "eles se esforçam para obter a felicidade e assim permanecer". E conclui: "O que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer".
Para alcançar a felicidade plena, é preciso evitar as formas de sofrimento e Freud elenca algumas tentativas nesse sentido, todas elas incapazes de alcançar esse fim último. (1) O isolamento voluntário, como forma de evitar os desgastes decorrentes dos relacionamentos humanos. Daí decorreria a suposta felicidade da quietude. (2) O caminho daquele que trabalha com todos para o bem de todos, com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência (não consegui encontrar no texto de Freud explicação clara do que seria isso). (3) métodos que visam influenciar o nosso próprio organismo.
Em relação a essa útima tentativa, Freud elenca 5 modalidades: (i) a intoxicação como o mais eficaz, todavia, perigosa e capaz de acarretar danos (é sabido o uso de cocaína por Freud para tratamento de seus pacientes durante certo período de sua clínica); (ii) o "aniquilamento dos instintos", tal como prescrito pela sabedoria do mundo peculiar ao Oriente e praticada pela ioga; (iii) a sublimação dos instintos, por meio do deslocamento da libido do aparelho mental, como fazem artistas em relação às suas criações, cientistas e suas descobertas, etc; porém, isso seria acessível a poucas pessoas , (iv) a vida da imaginação, relativa à fruição da fantasia pelas obras de arte, seja pelos seus criadores ou não, que teria apenas um caráter efêmero e não seria capaz de afastar a aflição real e (v) a opção mais radical e enérgica de um eremita, que considera a realidade como a única inimiga e a fonte de todo sofrimento e que ao final, na visão de Freud, produzirá um louco que não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar o real o seu delírio.
Portanto, todas as hipóteses assinaladas acima são descartadas por Freud como meio para satisfazer a aspiração da plena felicidade, por meio da supressão de todo sofrimento.
Assim sendo, tanto Lacan quanto Freud descartam a possibilidade de supressão do desejo de natureza instintiva no sujeito. Ele não pode ser plenamente suprimido. Isso é fundamental para a delimitação da ética DA psicanálise. Até onde ela se permite avançar e quais seriam os seus limites de atuação sobe o sujeito.
Por outro lado, muita coisa ficou no ar. Tive o cuidado de olhar atentamente para os argumentos relacionados às tentativas de (ii)aniquilamento e (iii) sublimação dos instintos. No meu modo de ver, eles pareceram bastante precipitados, sem dizer do último (eremita), de caráter ligeiramente autoritário... É compreensível que Freud tenha se lançado dessa maneira estrita sobre o tema, afinal de contas, o princípio do prazer e a castração são pedras fundamentais de sua teoria e, portanto, não há espaços para concessões no seu argumento. Para ele, o instinto libidinal é inerente ao sujeito e sua castração é a via de passagem do campo celerado do gozo esquizofrênico para o campo ético do desejo neurótico. Sob a perspectiva lacaniana, a foraclusão dos afetos de natureza libidinal aprisionaria o sujeito nos caos psicótico e, no limite, o levaria à psicopatia. Daí a necessidade de os conteúdos do sujeito atravessarem, no campo da linguagem, o percurso da "significantização" do Real para o simbólico, por meio do recalcamento.
Mas parece haver um espaço não elaborado sobre a transformação do desejo. Algumas tradições orientais tratam dessa hipótese como questão fundamental de suas doutrinas. E, para além disso, percebem a possibilidade da transformação do desejo como meio para se atingir a plena felicidade, livre de sofrimento. Dentre elas, a que conheço é a do budismo tibetano. Não é objetivo desse blog discorrer sobre sua doutrina, nem convencer ninguém da autenticidade de seus conteúdos. A perspectiva de atuação da psicanálise oferece a possibilidade de progressos extremamente relevantes para seus pacientes que possuem objetivos muito mais humildes do que a plena iluminação. Suportar de forma saudável e prazerosa a condição miserável de nossa existência já é um grande objetivo e está ao alcance da técnica psicanalítica. Isso cobre, de forma massiva, a grande maioria das inquietações dos homens e mulheres de nossa sociedade e, portanto, não qualquer comentário a se fazer a esse respeito. Entretanto, é extremamente enriquecedor conhecer a maneira pela qual essa tradição apresenta a forma de constituição do sujeito seja ele ocidental ou oriental. Trata-se de uma perspectiva universal do sujeito e que tem como premissa algo que faz lembrar aquele "sentimento oceânico", que Freud não foi capaz de reconhecer e que , por isso, levou-o a apresentar uma explicação psicanalítica para algo que precede o sujeito da psicanálise.
Ao meu ver, perceber o sujeito sob uma perspectiva mais ampla não prejudica a aplicação da técnica psicanalítica de maneira responsável e adequada. Apenas permite ampliar ainda mais as formas de atuação.
Semana que vem eu falo um pouco mais sobre esse sujeito.