segunda-feira, 30 de março de 2009

Desejo e sublimação

O texto que postei na semana passada revela a inquietação inicial de um trabalho entitulado: "Estruturação do sujeito, psicose e diálogos proibidos". Nele revelei meus questionamentos sobre uma visão que considero estreita e ao mesmo tempo fértil acerca da noção de estruturação do sujeito, trazida pelo pensamento psicanalítico. Questioná-la não significa descartá-la e, o que fiz, foi revelar um diálogo silencioso, porém inquietante, entre o saber psicanalítico e sabedoria budista. Portanto, o que vocês poderão acompanhar ao longo das próximas semanas é a continuidade desse trabalho, constituído pela dialética entre a pulsão de vida e a pulsão de morte, inerente ao sujeito. Divirtam-se!

Como eu ia dizendo em relação ao desejo, "seria possível ultrapassá-lo?"
Em 1960, ao tratar da ética do sujeito, conforme registrado no Seminário 7, "A ética da psicanálise", Lacan partiu das considerações de Aristóteles, Sade e Freud sobre o tema para chamar a atenção sobre a importância do conceito de "amor" no Ocidente, cunhado a partir da idéia do "amor cortês" dos trovadores do Sul da França do século XI, troveiros na França do Norte e Minnessänger na Alemanha. Trata-se de um "ideal de amor". Para Lacan "o amor cortês é uma forma exemplar, um paradigma da sublimação". Entretanto, Lacan propunha que:

"nem toda sublimação é possível no indivíduo (...). Alguma coisa não pode ser sublimada, há uma exigência libidinal, a uma exigência de certa dose, de uma certa taxa de satisfação direta, sem o que resultam danos e perturbações graves".

Depois, ao tratar do amor cortês dos trovadores, cuja leitura possível é a da "inacessibilidade do objeto", bem como do caminho para a sublimação, Lacan mostrava que, por meio de uma apresentação de caráter eminentemente enigmático,

"(...) chegou-se até a fazer sua aproximação com a erótica hindu ou tibetana, que esta última parece ter sido codificada de maneira mais precisa e, constituir uma ascese de disciplina do prazer, em que uma espécie de substância vivenciada pode surgir para o sujeito. É somente por extrapolação que se supõe que o que quer que seja que se pareça com ela tenha sido efetivamente praticado pelos trovadores. Pessoalmente, não acredito em nada disso. E sem chegar a supor a identidade entre as práticas extraídas de áreas culturais diferentes, acredito que a influência dessa poesia para nós foi decisiva".

Fica evidente que Lacan não acredita na possibilidade de supressão plena do desejo, em suas múltiplas expressões. Por outro lado, Lacan reconhece algo como "ascese da disciplina do prazer" tibetana, mas prefere descartar sua influência sobre a noção de sublimação (ocidental). Nesse momento, ao recolher mais argumentos para a delimitação de um campo ético psicanalítico ele acaba por restringir seu olhar para um sujeito cunhado a partir de referências ocidentais. Ora, não seria isso contraditório com uma noção de sujeito que se pretende universal?

No campo psicanalítico, ele não foi o primeiro a fazer isso. Algumas décadas antes, Freud deixava isso escancarado em "O Mal-estar da civilização"...

Semana que vem eu continuo a estória...

sexta-feira, 13 de março de 2009

Sujeito do desejo?

O sujeito é um fenônemo. Um continum que aparece e desaparece no discurso, seja ele exteriorizado ou não. Um flash discursivo contínuo amarrado a um vir-a-ser. Como as chapas de um filme que, reproduzidos seguidamente e a uma certa velocidade, dão uma aparência de algo inteiro e não fragmentado, de algo existente, com início, meio e fim. Engodo. Engodo dos sentidos.
Mas que sentido há nisso? Qual é a cadeia de significantes que da ordem a tudo isso? A cadeia que se estrutura a partir da relação com o corpo e com o discurso do Outro. Linguagem corporal e linguagem verbal que organizam a passagem do Real ao simbólico.
Um nome e uma forma, apenas. A ignorância do numenum dando origem à apreensão dualista de natureza simbólica. Na origem, apenas aquilo que, na psicanálise, ganhou a alcunha de "terror sem nome": o vazio. E daí, o que se toma como existente, está sempre aprisionado (i) pela fuga do que não se conhece e se teme conhecer - a morte desse sujeito da ilusão - e (ii) pelo campo da linguagem, sempre limitada, sempre incapaz de dizer o indizível.
O eu e o Outro. Esse Outro sou eu quem construo mas, de certa forma e até um certo limite, é ele que me constrói. Pura ilusão. Até que alguém consiga se aperceber dessa confusão estruturante o "sujeito-sintoma" já está estruturado.
A psicanálise entende ser possível resignificar seus conteúdos de forma a tornar suportável a miséria de nossa existência. Sua eficácia permite que o sujeito lide melhor com os fenômenos e as decorrentes emoções perturbadoras. E, como consequência inegável, contribuirá para suas condições de existência(s). Tudo isso é de grande valia.
O desejo é uma estrutura dada quase que aprioristicamente para a manifestação dessa existência miserável. Ou seja, daquela ignorância passamos à relação dual e ao grande paradoxo que é a aspiração de retornar à "unidade". A vida só é possível na união e, assim, o desejo de natureza libidinal é a marca fundamental impressa no ser humano (seja ele gozo ou, na clausura do campo ético, desejo propriamente dito). Mas para aí. Duas grandes verdades. (i) o sujeito é a expressão do "sintoma", assim como descreve Lacan ao tratar do significado da obra "Finnegans Wake" em relação ao seu autor, James Joyce; ele é a própria manifestação de um espaço universal de natureza patológica que, inevitavelmente, sofre, se não por qualquer outra razão, que seja simplesmente pela infalibilidade da morte e (ii) a origem dessa condição miserável é o desejo, que torna a vida possível, que torna a morte inescapável.
Mas e quanto a esse desejo, seria possível ultrapassá-lo?