terça-feira, 27 de outubro de 2009

BONECAS RUSSAS

Um filme que trata da busca amorosa, um assunto inerente ao ser humano. A grande maioria dos pacientes que passam no meu divã traz como foco da análise O AMOR. Seria esta a moral da história no filme? A busca incessante e infindável do amor? Quando achamos que aquele é o último tem sempre uma bonequinha dentro da outra para mostrar a continuidade, o inesperado, o novo. Normalmente observamos dois tipos de postura em relação ao amor, em uma delas o amor atual é vivido como se fosse o último e eterno, aquela coisa que transcende a vida, a grandeza do sentimento é tanta que achamos que não cabe nada além disso. Vive-se também como se fosse o primeiro, saboreando a novidade, o encantamento de todos os começos.

Xavier, o protagonista da história, é angustiado com o fato de escrever sobre amor, mas nunca viveu isso de forma verdadeira e duradoura. Como escrever sobre algo que não foi vivenciado?

Vou me concentrar em três pontos do filme:

1º - O SOCIAL

Xavier quer apresentar uma amiga para o avô como se fosse sua noiva, não gosta da idéia do avô morrer achando que o neto nunca teve um amor de verdade. Daqui extraímos a cobrança social, que aliada a nossa cobrança pessoal, gera uma grande angustia. A princípio a sociedade que se diz tão moderna cobra um namorado(a), depois o casamento, depois o primeiro filho e, quando este nem nasceu, pergunta-se quando virá o segundo. Muitos carregam e se angustiam com estes estereótipos sociais, tentam se moldar ao que é socialmente correto e apresentável. As cobranças sociais e pessoais se aliam gerando um monstro que quase nos engole quando analisamos nossos objetivos alcançados e, pior, os não alcançados. Neste momento do filme constatamos que a busca amorosa dele não era só pessoal, ele precisava de alguém para apresentar socialmente.

2º - O AMOR REAL

Xavier tem a oportunidade de viver um amor de verdade e tudo caminha bem, mas uma nova paixão é tentadora. Neste momento ele prioriza a fantasia, a ilusão, seu brinquedo, seu troféu, alguém tão belo que parecia ser irreal (e era), deixando para traz a princesa da realidade, de carne e osso. Experimentou, pela primeira vez, o amor e descobriu que com ele temos que lidar com os nossos desejos muitas vezes contraditórios, com a insatisfação diante da estabilidade, com a tentação da infidelidade. Como é difícil atingir esse amor que tanto almejamos e como é fácil perdê-lo. A angústia, que anteriormente era pela busca do amor, muda de foco, troca de roupa, mas está sempre ali, com ou sem amor, tirando nosso sossego, a nossa paz e tranqüilidade.

3º - AMANDO AS IMPERFEIÇÕES

Minha parte preferida do filme:

“-Você é um homem perfeito. Você é a melhor coisa que me aconteceu nos últimos 26 anos. Sei que você nem sempre é perfeito, que tem problemas, defeitos, imperfeições, mas quem não tem? Eu gosto dos seus problemas, me apaixonei por seus defeitos ele são fantásticos. Sei que as mulheres adoram homens bonitos, mas elas só vêem isso. Eu não sou assim. Não vejo só a beleza, gosto de outras coisas. Gosto do que não é perfeito. Eu sou assim.”

Na verdade amamos o pacote, não tem como separar os defeitos e qualidades e amar o que nos convém, amamos o ser por inteiro e o olhar muda quando se ama. As imperfeições tornam-se belas quando compreensíveis. O amor é uma plenitude, uma magia, entendemos o outro como ser humano que nós mesmo somos passíveis de erros e acertos. É tão difícil ser Deus, é tão difícil quando somos idolatrados porque o mínimo que façamos será perdido para sempre. Bom mesmo é ser humano e ser olhado com mais compaixão diante de nosso erros e imperfeições.

Precisamos amar e ser amado para nos sentirmos mais completos? Não será isso ilusório? Teremos sempre a sensação de incompletude, mas isso nos move, nos leva para frente, faz parte da nossa trajetória. Não deixem de apreciar o filme.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

PAI, MÃE, FILHOS...

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Outro dia acompanhei uma discussão no Orkut sobre a importância da tríade pai, mãe e filho na sociedade atual. A comunidade chama-se “psicanálise clinica”. A pessoa que abriu defendia o fato de que apesar dos valores da sociedade atual, nada substitui esta tríade fundamental para a construção psíquica saudável do ser. Ainda ressalta que um não consegue fazer o papel de dois e que o mito de PÃE é muito difícil de ser desempenhado de forma completa.

Depoimento do Renato D’Martino:

O mito do Pãe

- Acumulo de função; o mito do Pãe
A denominação “Pãe” é interessante e perigosa.
Sugere onipotência (extremamente prejudicial como modelo de ser humano), um super-herói, alguém que na verdade não existe, pois deixa de viver sua própria vida em função do outro.
Penso que a tarefa de cuidado dos filhos é sempre melhor sucedida quando feita em uma dupla, porém, em qualquer que seja a tentativa de dividir a pratica dessa tarefa, o afeto é um ingrediente indispensável.
Em ultima analise, se falarmos em necessidade, penso que pode ser a única saída, mas, não podemos esquecer que educar um filho é tarefa de uma dupla (mais especificamente uma mulher e um homem), nunca de um só. Existem mecanismos psíquicos e experiências emocionais extremamente importantes para o desenvolvimento, que só podem ser vividas no triângulo Mãe, Pai e Filho.
Digo isso pois, sem esse modelo é real e claro o prejuízo no desenvolvimento emocional do sujeito. Cuidar do que se criou por dois, continua sendo um papel da dupla, assim como foi no momento da concepção.

Daí vieram os contrapontos. O mais significativo foi o de uma psicóloga que defendeu a idéia de que a sociedade se compõe de vários núcleos e que a realidade atual não comporta este modelo tão certinho de família feliz, mas ou menos isso...Ainda uma outra pessoa disse que essa tríade não garante que o psiquismo da criança será promissor. Renato, ainda completa dizendo que uma união feliz e segura pode servir como primeiro passo.

Concordo com Renato plenamente, um ambiente seguro, amoroso pode não ser a solução de todos os problemas, mas pode servir de base bem sólida para construção do psiquismo saudável. Os pais inserem a criança no mundo da linguagem, dos pais depende muito a formação da criança, claro que cada um vai agir diferente diante daquilo que é passado, recebido, depende também do olhar de quem vivencia. Dois filhos de pais separados podem processar psiquicamente esta separação de forma diferente, além de depender muito de como os pais vão reagir diante dos filhos neste processo de separação.

Em uma separação é importante:

-Saber separar o homem do pai, pode ser um péssimo marido, mas não impede que seja um ótimo pai.

-Denegrir a imagem do pai ou da mãe não é construtivo para a criança.

- Não envolvam a criança nos problemas emocionais que diz respeito apenas aos dois.

Difícil? Como seres humanos passíveis de sentimentos descontrolados e que muitas vezes dominam, acabamos enfiando os pés pelas mãos. Não funciona como receita de bolo, mas cuidando destes pontos minimizam-se os problemas.

Alguns defendem o fato da sociedade atual abrigar uma realidade de grande incidência de casais separados e mãe solteiras. Apesar de fazer parte do quadro atual não abdicamos do mérito de que de uma família com pai, mãe e filho passa uma segurança indiscutível para o crescimento de qualquer ser, independente do crescimento constante do número de divorciados ou mães que não sabem o paradeiro do pai do filho.

Um avô ou um irmão pode ocupar o lugar do pai como referencial masculino e desempenhar um papel muito bom em certos aspectos da vida de uma criança, mas o buraco do pai... muito difícil de alguém ocupar. Um caso de abandono é triste, seja ele emocional ou físico. Fica um oco, um vazio cheio de por quês que, provavelmente, não serão respondidos. Pai morto também deixa vazios. Por isso, em muitos casos de adoção, o filho adotivo tem uma grande necessidade de reencontrar ou conhecer os pais biológicos.

A partir do momento que não podemos dar mais aos nossos filhos exemplo de amor e a união inicial tornou-se sem sentido, não devemos prolongar um sacrifício inútil de convivência forçada, É importante que exista um referencial de amor, companheirismo, amizade, respeito e até mesmo de desejo entre os pais. Sem o desejo entre os pais não se castra uma criança. Se estes referenciais não são mais possíveis segue a separação, que no caso será mais saudável se acontecer de forma madura e equilibrada.

Quando eu falo de referencial de amor, não me refiro ao amor romântico de Romeu e Julieta, ou Eros e Psique, falo do toque de carinho natural que o filho pode presenciar, da ajuda mutua, o estender a mão quando a família de origem(pai e mãe) de ambos precisam de ajuda, o incentivo profissional, o apoio, o poder contar um com o outro, as brincadeiras familiares, o olhar de desejo, de beleza, admiração, tudo isso a criança sente e serve como base de vida. Isso é importante...se isso acabar, o “estar junto” perde o sentido.

RECOMENDO UM FILME BOBO E BEM LIGHT QUE ABORDA O ASSUNTO DE FORMA ROMÂNTICA: TRÊS FORMAS DE AMAR, um pai conta as suas histórias de amor para a filha, inclusive como conheceu e se apaixonou pela mãe Del. São separados atualmente, mas ressalta que já houve entre eles um grande amor e o que deu certo na história foi ela, a filha. Assistam!!!

terça-feira, 21 de julho de 2009

A BUSCA DO PRAZER

A luta constante com meus pacientes não é pela busca do prazer, mas onde este reside. Dependendo do grau de insatisfação, depressão, melancolia, fica difícil conceituar isso, enxergar, sentir. Até mesmo a baixa auto-estima leva a um boicote quanto a este “desfrute”.Muitos não se permitem e não se julgam merecedores desse tão almejado prazer.
O alvo de prazer ou felicidade pode mudar muito de acordo com a situação, o momento. A nossa fonte de prazer de ontem pode não ser a mesma de hoje. Isso faz parte do amadurecimento, das mudanças de foco e, até mesmo, da prioridade das futilidades que nos permitimos desfrutar.
Lendo o livro Manual do Hedonista, Dominando a esquecida arte do prazer, autor Michael Flocker , apreendi muitas coisas interessantes sobre o assunto. Flocker é enfático quando diz que o prazer não se limita a deitar em uma rede, não fazer nada mas “criar uma vida que seja ao mesmo tempo interessante e agradável” . Este prazer interessante e de qualidade não se trata de luxo, mas de necessidade, que deve ser vivida e desfrutada de forma saudável e concreta.
Ele faz uma crítica ressaltando que negar o lado sombrio não é saudável. É extremamente inútil, negar o que há de obscuro e feio em nos e nas situações, utilizando a expressão: “ser bom o tempo todo é artificial”. Eu concordo e acho que devemos sim dar vazão a nossos monstros antes que aprisionados eles se alimentem tanto dos nossos desejos maldosos e reprimidos que cresçam e, fugindo do nosso controle, causem estragos ainda maiores. E também situações nebulosas afinal, o sofrimento é nosso e não vale ficar pensando que o problema do outro é maior ou pior, devemos, sim, dar o devido valor a nossos problemas e chorar por eles, sofrer por eles e achar que é o fim do mundo sim...São nossos problemas e só nós entendemos a dimensão da dor que sentimos. Sofrer por eles ajuda a processá-los, a entendê-los, a arrancar a lição disso e seguir adiante com algo novo no coração, na nossa história.
Dentro deste mundo de prazeres que devemos desfrutar, é preciso não esquecer de não invadir o território alheio, não esquecer do respeito ao outro e lembrar que seu prazer não pode estar atrelado ao sofrimento do outro. O mundo é vasto e as fontes de prazeres também. Agradeço muito a troca que há entre meus pacientes e eu, agradeço a quem trouxe aos meus ouvidos um preceito budista que diz: “se vai faze algo que vai prejudicar o outro, não faça”. Sempre tive isso comigo de outra forma: “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você.” Então amigos, podem até se deleitar nos seus prazeres, mas não esqueçam da lei da causa e efeito, isso é milenar e real.
Agradeço ao paciente que trouxe este livro ao meu alcance e me permitiu ter acesso a pontuações que estavam meio bagunçadas na minha mente e que agora se organizaram. É assim que deve funcionar as relações doando e recebendo coisas boas e até as que não são tão boas e contribuem bastante para nosso crescimento afinal, tudo na vida tem seu lado claro e escuro.

RECOMENDO O LIVRO: MANUAL DO HEDONISTA, DOMINANDO A ESQUECIDA ARTE DO PRAZER.


quarta-feira, 24 de junho de 2009

ANGUSTIA X FANTASIA

Por que algumas pessoas precisam da angústia para viver? É uma realidade que presencio na vida, no dia a dia, no consultório. Em um exemplo bem banal, podemos notar que o sofrimento é o que mantém audiência nas novelas, nos filmes. A mocinha e o vilão das novelas tem que criar uma situação tensa por mais de seis meses para segurar o público, a felicidade não prende, não mantém a fidelidade de quem assiste.

A angustia é tão inerente ao ser que algumas pessoas resistem a terapia por não saber o que seria delas se aniquilassem esse sentimento. O que será de mim sem a minha depressão? Inacreditável, mas isso existe. Muitas não assumem. Algumas, quando vêem que algo está se resolvendo para diluir a angústia, não aparecem mais no consultório, somem ou dão uma desculpa banal para finalizar as sessões. Há o boicote também de dar pra trás quando tudo começa a dar certo. Isso tem a ver também com a autopunição, auto-estima baixa, não se achar merecedor.

A felicidade não é um estado constante, existem momentos felizes, mas claro que sempre estamos às voltas com as mazelas do dia a dia, da vida, normal. É importante sabermos desfrutar das coisas boas que a vida nos proporciona para aproveitar estes momentos felizes, mas apreender esta felicidade não existe, ela é tão inconstante quanto nós. Mas, algumas pessoas, têm o dom de perpetuar suas tristezas, manejar os acontecimentos para que a angustia se instaure.

Mudando de assunto, volto a falar da fantasia. Assisti há pouco tempo, pela segunda vez, o filme AS PONTES DE MADSON, é um filme muito bonito e com uma mensagem fantástica. A protagonista tem um casamento estável e rotineiro, com um bom homem. Um casal de filhos crescidos. O fato de ser um homem bom não segura a relação, haviam insatisfações dentro desta estabilidade que eram subentendidas e que só se revelaram para ela com o aparecimento de um fotógrafo. Com este teve um caso de quatro dias, e pelo que viveram julgaram ser o grande amor da vida, um do outro. Diante da escolha que se impôs, ela optou pela família. E passou o resto da vida com a fantasia do amante na cabeça. O que é uma fantasia? Que força ela exerce sobre nós? Se ela tivesse optado pelo fotógrafo ele iria fazer parte da rotina, surgindo todas as dificuldades que esta impõe, ia começar a ver seus defeitos gritantes e os problemas de convivência normal entre duas pessoas. E aí eu questiono...é possível competir com a fantasia? Não seria melhor deixá-la no lugar de fantasia? Ou será que devemos mesmo vivê-las e dar boas vindas ao paraíso e inferno do mundo real.

No clip da música da Marisa Monte “Amor I Love You” ela retrata um pouco disso. Dois velhinhos casados há muitos anos, e cada um mantém em suas lembranças a fantasia de um outro amor. Talvez eles precisassem disso para suportar a rotina. Não se assustem, de certa forma isso é até saudável, desde que um não tenha acesso a fantasia do outro e essa fantasia permaneça no lugar de fantasia, o lugar que lhe cabe.

A fantasia gera a angustia e dentro de uma relação muitas vezes a angustia gera a fantasia. Muitos não sabem lidar com estas facetas que a vida traz, isso acarreta outros sentimentos: CULPA. Um fantasma devastador que te impede de se deliciar com suas fantasias. Assistam o clipe da Marisa Monte(Amor I Love You) e sejam felizes, afinal o que seria do ser humano sem suas angustias e fantasias?

quarta-feira, 27 de maio de 2009

IN TREATMENTE (EM TERAPIA)


Quem acompanha o seriado americano “in treatment” vai entender o que estou falando. Para quem não acompanha, trata-se das sessões semanais de um psicoterapeuta e seus pacientes, tendo ainda sua própria terapia semanal e algumas cenas de sua vida pessoal. Cada dia da semana é destinado a uma paciente.

No primeiro episódio temos uma noção da contratransferência com a Laura, uma paciente extremamente sedutora, que se apaixona pelo analista e tenta seduzi-lo para que este faça parte de mais uma de suas conquistas, sendo este o meu ponto de vista. Pela história de vida dela não consegui enxergar de outra forma. Como o casamento de Paul(o analista) vinha enfrentando uma crise, ele se deixou seduzir, não concretizando o ato devido à ética da sua profissão. Neste ponto ele entra em cena com Gina (sua terapeuta e mentora), expondo seus conflitos em relação a profissão e o que deve se abdicar da vida em prol desta.

Neste momento vem à tona a humanidade do terapeuta, mesmo diante daqueles fatos de vida da paciente e informações que ele tem acesso para delinear aquela personalidade, se permitiu entrar no jogo, de forma ingênua, podemos dizer, embora não sei bem se é essa a palavra que cabe. Aí ele entra no lugar comum, sai da posição de “Sujeito Suposto Saber” para fazer parte da vida do paciente, expondo suas fragilidades e se permitindo achar que “com ele será diferente”. Como telespectadora, vendo aquelas vidas de cima (ressalto, de telespectadora e não de analista), de um ângulo completamente diferente daquele visto por quem vive, não acreditei como Paul se deixou seduzir, os fatos estavam ali na sua frente e ele se tornava cada vez mais alvo fixo dela, justamente pelas dificuldades que se apresentavam. Não temos como saber se Paul seria mais uma aventura para Laura, não foi dito no final da temporada, mas eu não consigo ver diferente, mesmo porque ela não foi devidamente analisada e ficaram muitas pontas soltas, já que ela ia para o consultório para seduzir o terapeuta. Interrompeu a sua análise antes mesmo de montar as peças do quebra cabeça do seu psiquismo, que era bastante confuso.

Devido à crise de um casamento falido, a esposa de Paul também se envolveu com outra pessoa e a raiva que ele sentiu não era só o ego ferido, mas era também porque ela concretizou algo que ele gostaria de ter feito, mas não fez porque estava atado devido à ética profissional.

Eu não tenho muito apreço pela Laura, minha paciente preferida foi a Sophie, uma ginasta, mas não vou falar dela desta vez. Agora, na segunda temporada, o paciente que conseguiu despertar minha atenção foi o Walter, um senhor de bastante idade, bem sucedido profissionalmente que tem crises de pânico desde a infância. O que eu não acho legal neste seriado são dois pontos:

1- O fato dos pacientes serem sempre resistentes, sempre agressivos e, nesta segunda temporada, isso se evidencia. Isso não é uma regra na clínica da vida real, grande parte está com a predisposição para colaborar da melhor forma possível com a análise.

2- Na tentativa de expor a humanidade do terapeuta Paul é colocado numa posição muito pouco racional na sua própria terapia. Isso também fica mais evidente na segunda temporada, quando ele mostra diante da sua terapeuta, as mesmas resistências (apresentadas pelos pacientes dele) diante da sua análise pessoal. Acho que com a experiência que ele tem de mais de vinte anos deveria elaborar melhor sua postura diante de seus próprios problemas.

Essa profissão é apaixonante, falo da minha experiência como psicanalista, como é renovador tocar o outro de forma tão profunda e diferente, sacudir, fazer com que aquele diante de você se reinvente, se aceite e se transforme. Como contra partida, a cada consulta, o mesmo acontece com o analista. É um constante aprendizado, uma construção contínua na vida de ambos. Agradeço a todos os meus pacientes que estão em análise e aos que finalizaram esta.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Singularidade plural do ser-humano

"Porque será que insisto em temas complexos com títulos esquisitos? Tem sempre um sujeito em mim gritando por uma luz que descortine o mosaico colorido dos meus significantes. A percepção confusa das infinitas representações simbólicas caoticamente costuradas numa translúcida teia de estruturas fugazes de aparência sólida como uma miragem, a me levar por uma existência sem fim, implora por alguma compreensão".
Esse é o registro de um dos "meus sujeitos". Mas há outros: que desejam, que sentem, que sofrem, que agem, que tocam. Essa pluralidade de sujeitos me tornam um sujeito-sintoma singular. Um ser-humano singular.
Em geral, somos singulares pela pluralidade que nos estrutura. Pelas afetos produzidos ao longo de toda nossa existência, pelas escolhas que fazemos e deixamos de fazer, pela multiplicidade do discurso do outro que atua de maneira recíproca entre os interlocutores envolvidos, pela interdependência de todos os fenônemos que percebemos.
Mas isso pode deixar o leitor confuso. "Se eu sou vários sujeitos, existe algum entre eles que se sobressai em relação aos demais? Existe um sujeito-referência, em torno do qual os demais gravitariam?" Claro! O sujeito contido no discurso deste exato instante. Esse sujeito é construído a cada instante e a cada escolha. Ele é a expressão discursiva produzida pelo corpo, palavra ou mente nesse exato instante, nem antes, nem depois. De certa forma, somente ele existe (ex-sistere: ser para o outro). Os outros são (são para si). O primeiro é ontológico, os demais são ônticos.
No divã, o psicanalista interage com o sujeito da psicanálise, por meio da sua técnica. Esse sujeito é o produto daquele instante discursivo, naquele contexto. Ele é um fenômeno de natureza psicanalítica, parecido com um tricot feito a quatro mãos", uma vez que sua rede de significantes é tecida por meio do discurso de ambos, analista e analisando. Para esse sujeito não existem fórmulas prontas e soluções pré-fabricadas. Sua análise é individual e específica, pois ele é a expressão da singularidade discursiva do ser-humano singular deitado no divã naquele instante.
A riqueza do ser-humano singular está no caráter plural de suas possibilidades, pois a natureza do seu discurso revela um potencial aberto e criativo, inerente a infinitude deste instante.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Desculpem o sumiço!

Amigos(as),
Estive ausente durante os últimos dias e não trouxe nenhuma novidade para o blog. Foi mal! (rs)
Prometo algo novo na próxima semana.
Enretanto, nesse final de semana minha colega Leila vai fazer uma apresentação cujo tema é "Pai Ausente". Será o primeiro encontro do grupo "Por Dentro do Ser", aqui em Brasília, que terá o propósito de debater questões da psique humana, de uma maneira crítica e inovadora. Tenho certeza de que será um sucesso. Quem se interessar, entre em contato pelo blog!
abraços e até semana que vem.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Desejo, sujeito da psicanálise e ser-humano

Hoje pretendo fechar o raciocínio a respeito do desejo e a constituição do sujeito, que se iniciou no primeiro texto que postei.
Para isso é importante marcar com atenção, desde o início, a distinção que há entre dois conceitos diferentes e que, até a publicação desse texto, não havia sido feita de forma clara: o sujeito do inconsciente ou sujeito da psicanálise, incurável, objeto de atuação dos psicanalistas e cuja formulação, no meu modo de ver, nem sempre é clara (em tempo, apesar de prolixo, Lacan tem um pouco mais de êxito nessa tarefa do que Freud) e o "sujeito-sintoma" ou ser-humano, que sou eu, você e qualquer um andando na rua ou lendo este blog.
O primeiro se constrõe no setting psicanalítico, ou seja, no consultório. Deitado no divã, o analisando teia junta com o analista a trama linguística de inconscientes que desvela a cadeia de significantes e dá origem a esse sujeito da psicanálise. Ele é produto do fenômeno psicanalítico, do "aqui-agora" psicanalítico. Ele aparece e desaparece no discurso do Outro. O segundo é esse "ser" em relação ao qual as diversas tradições e filosofias apresentam formulações e teorias sobre sua natureza e constituição e que, no meu modo de ver, não está restrito ao discurso do campo psicanalítico. Apesar de identificar muitos pontos de convergência com ele (discurso psicanalítico), parto da premissa de que o ser-humano não é simplesmente o resultado do discurso do Outro. Particularmente, acredito que sua natureza seja vacuidade, claridade e não-obstrução. Nada impede que cada psicanalista tenha a sua versão íntima sobre a natureza do ser-humano. Entretanto, isso não interfere, ou melhor, não deve interferir diretamente na aplicação da técnica psicanalítica, pois o objeto sobre o qual o psicanalista atua é o sujeito da psicanálise.
Pois bem. Tal distinção não aparece tão clara nos textos psicanalíticos dos autores trazidos nas últimas semanas. Na ânsia de encontrarem fundamentos para para uma pretensiosa teoria geral sobre o sujeito, que vai além da teoria psicanalítica (enquanto técnica para lidar com os sintomas do sujeito da psicanálise), os autores se referem a um e outro sem fazerem distinções. Nesse sentido, ao tratarem de questões envolvendo o ser-humano, os grandes formuladores do discurso psicanálitico, Freud e Lacan, fazem coro ao afirmar a impossibilidade de supressão do desejo como possibilidade para a cessação plena do sofrimento.
Enquanto psicanalista, inclino-me para a noção de que o sujeito da psicanálise está inserido num universo de desejo e que se estrutura no campo da linguagem, a partir da relação dual com o outro, marcada pelo instinto libidinal de ser. É essa pulsão que torna possível a vida e que sustenta a farsa dos nossos sentidos e a tirania dos seus desmandos. Apesar de acreditar que a essência do ser-humano é ilimitada, ou seja, vai além das categorias psicanalíticas, sob uma perspectiva relativa, o desejo lhe é estruturante e a tentativa de arrancá-lo, na enorme maioria dos casos com os quais nos deparamos no nosso dia-a-dia, acarretaria muito mais problemas do que soluções. De outro lado, isso não significa, necessariamente, que o ser-humano seja incapaz de transformar o desejo, como o propósito de cessação plena do sofrimento, como propõem certas tradições e filosofias orientais, fato que este que abriria uma possibilidade ainda nova para o pensamento ocidental sobre como lidar com os sintomas da humanidade ou, ainda, de maneira mais ousada, como lidar com o próprio ser-humano. Nas diversas passagens colhidas ao longo dos textos anteriores, ficou clara a superficialidade com que Lacan e Freud trataram da "ascese da disciplina do prazer tibetana" e das "técnicas orientais hinduistas e de yoga" para lidar com o desejo, respectivamente. Diferente da teoria psicanalítica, que possui pouco mais de um século de existência, tratam-se de sabedorias milenares e que exigiriam uma abordagem bastante aprofundada, caso se pretendesse refutar suas proposições.
Diante de tais constatações, pode-se afirmar que as formulações acerca do ser-humano, que invariavelmente se confundem no discurso psicanalítico desses autores com a constituição do sujeito da psicanálise, contêm categorias estruturadas a partir de um universo simbólico de origem grega e judaico-cristã, inegavelmente vinculado a uma perspectiva ocidental. Uma das razões para isso é o fato de que tais formulações se fundamentam na experiência da clínica psicanalítica, cujo campo de atuação é quase exclusivamente marcado por raízes culturais judaico-cristãs. Outro razão está nos influxos da mitologia grega e da filosofia ocidental sobre seu arcabouço teórico. Ora, é preciso registrar que a psicanálise é, em síntese, uma técnica para lidar com os sintomas do sujeito da psicanálise. Sua competência nessa missão é inegável e sua pretensão não vai e não deve ir além disso. Entretanto, quando se pretende uma formulação universal sobre o ser-humano deve-se abandonar a perspectiva etnocentrista e buscar uma experiência que não se restrinja à psicanalítica.
Com essas considerações espero ter desfeito alguns dos "nós" que embolavam as afirmações dos meus primeiros textos. Será?
Semana que vem pretendo trazer algo novo. Até lá!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Desejo e sublimação 2

Como eu disse na semana passada, Freud também tratou da questão da sublimação do desejo, mas para encontrá-la em seu texto O Mal-Estar da Civilização farei um percurso mais extenso pelos seus argumentos. Mas não se preocupem, pois esse caminho é extremamente interessante para o debate que proponho.
Freud inicia o referido texto às voltas com uma inquietante colocação feita por um amigo (Romain Rolland), a respeito da fonte da religiosidade, que seria experimentada por milhões de pessoas. Trata-se de um "sentimento oceânico" compreendido por Freud como sendo um sentimento de vínculo indissolúvel, de ser uno com o mundo externo como um todo.
Na sua experiência ele (Freud) não conseguiu se convencer da natureza primária desse sentimento reconhecendo, todavia, que isso não lhe daria o direito de negar que ele de fato ocorra em outras pessoas. Diante dessa situação, ele propõe uma explicação psicanalítica para essa questão.
Ao debruçar-se para melhor apreciação do tema, Freud se remete às fases primitivas da constituição do sujeito, na qual a criança recém-nascida ainda não distingue seu ego do mundo exterior. Essa seria a posição esquizoparanóide, assim definida por Melanie Klein, marcada pela presença do objeto fusional mãe-bebê. O "sentimento oceânico", então, estaria associado a uma fase primitiva do sentimento do ego o que, na visão de Freud, afastaria o direito de ser uma fonte das necessidades religiosas. Ele, entretanto, vai além, deixando uma dica a respeito do papel de Deus, ao tratar do desamparo experimentado pelo bebê nos seus primeiros dias da infância. Aterrorizado pelo medo do "poder superior do Destino" Freud afirma: "Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai". Ele encerra sua argumentação reconhecendo que pode haver algo mais por trás disso, mas, presentemente, "ainda, está envolto em obscuridade".
Pois bem, seguindo a respeito do papel da religião, Freud atribui a ela a possibilidade de respostas para a questão mais complexa de todas: o propósito da vida. Entretanto, para evitar o confronto com o tema de tamanha magnitude, pois esse não parece ser seu objeto de elaboração, Freud ajusta a questão para algo mais tangível a sua técnica. O que os homens pedem da vida e o que desejam realizar? Ele, então responde, "eles se esforçam para obter a felicidade e assim permanecer". E conclui: "O que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer".
Para alcançar a felicidade plena, é preciso evitar as formas de sofrimento e Freud elenca algumas tentativas nesse sentido, todas elas incapazes de alcançar esse fim último. (1) O isolamento voluntário, como forma de evitar os desgastes decorrentes dos relacionamentos humanos. Daí decorreria a suposta felicidade da quietude. (2) O caminho daquele que trabalha com todos para o bem de todos, com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência (não consegui encontrar no texto de Freud explicação clara do que seria isso). (3) métodos que visam influenciar o nosso próprio organismo.
Em relação a essa útima tentativa, Freud elenca 5 modalidades: (i) a intoxicação como o mais eficaz, todavia, perigosa e capaz de acarretar danos (é sabido o uso de cocaína por Freud para tratamento de seus pacientes durante certo período de sua clínica); (ii) o "aniquilamento dos instintos", tal como prescrito pela sabedoria do mundo peculiar ao Oriente e praticada pela ioga; (iii) a sublimação dos instintos, por meio do deslocamento da libido do aparelho mental, como fazem artistas em relação às suas criações, cientistas e suas descobertas, etc; porém, isso seria acessível a poucas pessoas , (iv) a vida da imaginação, relativa à fruição da fantasia pelas obras de arte, seja pelos seus criadores ou não, que teria apenas um caráter efêmero e não seria capaz de afastar a aflição real e (v) a opção mais radical e enérgica de um eremita, que considera a realidade como a única inimiga e a fonte de todo sofrimento e que ao final, na visão de Freud, produzirá um louco que não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar o real o seu delírio.
Portanto, todas as hipóteses assinaladas acima são descartadas por Freud como meio para satisfazer a aspiração da plena felicidade, por meio da supressão de todo sofrimento.
Assim sendo, tanto Lacan quanto Freud descartam a possibilidade de supressão do desejo de natureza instintiva no sujeito. Ele não pode ser plenamente suprimido. Isso é fundamental para a delimitação da ética DA psicanálise. Até onde ela se permite avançar e quais seriam os seus limites de atuação sobe o sujeito.
Por outro lado, muita coisa ficou no ar. Tive o cuidado de olhar atentamente para os argumentos relacionados às tentativas de (ii)aniquilamento e (iii) sublimação dos instintos. No meu modo de ver, eles pareceram bastante precipitados, sem dizer do último (eremita), de caráter ligeiramente autoritário... É compreensível que Freud tenha se lançado dessa maneira estrita sobre o tema, afinal de contas, o princípio do prazer e a castração são pedras fundamentais de sua teoria e, portanto, não há espaços para concessões no seu argumento. Para ele, o instinto libidinal é inerente ao sujeito e sua castração é a via de passagem do campo celerado do gozo esquizofrênico para o campo ético do desejo neurótico. Sob a perspectiva lacaniana, a foraclusão dos afetos de natureza libidinal aprisionaria o sujeito nos caos psicótico e, no limite, o levaria à psicopatia. Daí a necessidade de os conteúdos do sujeito atravessarem, no campo da linguagem, o percurso da "significantização" do Real para o simbólico, por meio do recalcamento.
Mas parece haver um espaço não elaborado sobre a transformação do desejo. Algumas tradições orientais tratam dessa hipótese como questão fundamental de suas doutrinas. E, para além disso, percebem a possibilidade da transformação do desejo como meio para se atingir a plena felicidade, livre de sofrimento. Dentre elas, a que conheço é a do budismo tibetano. Não é objetivo desse blog discorrer sobre sua doutrina, nem convencer ninguém da autenticidade de seus conteúdos. A perspectiva de atuação da psicanálise oferece a possibilidade de progressos extremamente relevantes para seus pacientes que possuem objetivos muito mais humildes do que a plena iluminação. Suportar de forma saudável e prazerosa a condição miserável de nossa existência já é um grande objetivo e está ao alcance da técnica psicanalítica. Isso cobre, de forma massiva, a grande maioria das inquietações dos homens e mulheres de nossa sociedade e, portanto, não qualquer comentário a se fazer a esse respeito. Entretanto, é extremamente enriquecedor conhecer a maneira pela qual essa tradição apresenta a forma de constituição do sujeito seja ele ocidental ou oriental. Trata-se de uma perspectiva universal do sujeito e que tem como premissa algo que faz lembrar aquele "sentimento oceânico", que Freud não foi capaz de reconhecer e que , por isso, levou-o a apresentar uma explicação psicanalítica para algo que precede o sujeito da psicanálise.
Ao meu ver, perceber o sujeito sob uma perspectiva mais ampla não prejudica a aplicação da técnica psicanalítica de maneira responsável e adequada. Apenas permite ampliar ainda mais as formas de atuação.
Semana que vem eu falo um pouco mais sobre esse sujeito.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Desejo e sublimação

O texto que postei na semana passada revela a inquietação inicial de um trabalho entitulado: "Estruturação do sujeito, psicose e diálogos proibidos". Nele revelei meus questionamentos sobre uma visão que considero estreita e ao mesmo tempo fértil acerca da noção de estruturação do sujeito, trazida pelo pensamento psicanalítico. Questioná-la não significa descartá-la e, o que fiz, foi revelar um diálogo silencioso, porém inquietante, entre o saber psicanalítico e sabedoria budista. Portanto, o que vocês poderão acompanhar ao longo das próximas semanas é a continuidade desse trabalho, constituído pela dialética entre a pulsão de vida e a pulsão de morte, inerente ao sujeito. Divirtam-se!

Como eu ia dizendo em relação ao desejo, "seria possível ultrapassá-lo?"
Em 1960, ao tratar da ética do sujeito, conforme registrado no Seminário 7, "A ética da psicanálise", Lacan partiu das considerações de Aristóteles, Sade e Freud sobre o tema para chamar a atenção sobre a importância do conceito de "amor" no Ocidente, cunhado a partir da idéia do "amor cortês" dos trovadores do Sul da França do século XI, troveiros na França do Norte e Minnessänger na Alemanha. Trata-se de um "ideal de amor". Para Lacan "o amor cortês é uma forma exemplar, um paradigma da sublimação". Entretanto, Lacan propunha que:

"nem toda sublimação é possível no indivíduo (...). Alguma coisa não pode ser sublimada, há uma exigência libidinal, a uma exigência de certa dose, de uma certa taxa de satisfação direta, sem o que resultam danos e perturbações graves".

Depois, ao tratar do amor cortês dos trovadores, cuja leitura possível é a da "inacessibilidade do objeto", bem como do caminho para a sublimação, Lacan mostrava que, por meio de uma apresentação de caráter eminentemente enigmático,

"(...) chegou-se até a fazer sua aproximação com a erótica hindu ou tibetana, que esta última parece ter sido codificada de maneira mais precisa e, constituir uma ascese de disciplina do prazer, em que uma espécie de substância vivenciada pode surgir para o sujeito. É somente por extrapolação que se supõe que o que quer que seja que se pareça com ela tenha sido efetivamente praticado pelos trovadores. Pessoalmente, não acredito em nada disso. E sem chegar a supor a identidade entre as práticas extraídas de áreas culturais diferentes, acredito que a influência dessa poesia para nós foi decisiva".

Fica evidente que Lacan não acredita na possibilidade de supressão plena do desejo, em suas múltiplas expressões. Por outro lado, Lacan reconhece algo como "ascese da disciplina do prazer" tibetana, mas prefere descartar sua influência sobre a noção de sublimação (ocidental). Nesse momento, ao recolher mais argumentos para a delimitação de um campo ético psicanalítico ele acaba por restringir seu olhar para um sujeito cunhado a partir de referências ocidentais. Ora, não seria isso contraditório com uma noção de sujeito que se pretende universal?

No campo psicanalítico, ele não foi o primeiro a fazer isso. Algumas décadas antes, Freud deixava isso escancarado em "O Mal-estar da civilização"...

Semana que vem eu continuo a estória...

sexta-feira, 13 de março de 2009

Sujeito do desejo?

O sujeito é um fenônemo. Um continum que aparece e desaparece no discurso, seja ele exteriorizado ou não. Um flash discursivo contínuo amarrado a um vir-a-ser. Como as chapas de um filme que, reproduzidos seguidamente e a uma certa velocidade, dão uma aparência de algo inteiro e não fragmentado, de algo existente, com início, meio e fim. Engodo. Engodo dos sentidos.
Mas que sentido há nisso? Qual é a cadeia de significantes que da ordem a tudo isso? A cadeia que se estrutura a partir da relação com o corpo e com o discurso do Outro. Linguagem corporal e linguagem verbal que organizam a passagem do Real ao simbólico.
Um nome e uma forma, apenas. A ignorância do numenum dando origem à apreensão dualista de natureza simbólica. Na origem, apenas aquilo que, na psicanálise, ganhou a alcunha de "terror sem nome": o vazio. E daí, o que se toma como existente, está sempre aprisionado (i) pela fuga do que não se conhece e se teme conhecer - a morte desse sujeito da ilusão - e (ii) pelo campo da linguagem, sempre limitada, sempre incapaz de dizer o indizível.
O eu e o Outro. Esse Outro sou eu quem construo mas, de certa forma e até um certo limite, é ele que me constrói. Pura ilusão. Até que alguém consiga se aperceber dessa confusão estruturante o "sujeito-sintoma" já está estruturado.
A psicanálise entende ser possível resignificar seus conteúdos de forma a tornar suportável a miséria de nossa existência. Sua eficácia permite que o sujeito lide melhor com os fenômenos e as decorrentes emoções perturbadoras. E, como consequência inegável, contribuirá para suas condições de existência(s). Tudo isso é de grande valia.
O desejo é uma estrutura dada quase que aprioristicamente para a manifestação dessa existência miserável. Ou seja, daquela ignorância passamos à relação dual e ao grande paradoxo que é a aspiração de retornar à "unidade". A vida só é possível na união e, assim, o desejo de natureza libidinal é a marca fundamental impressa no ser humano (seja ele gozo ou, na clausura do campo ético, desejo propriamente dito). Mas para aí. Duas grandes verdades. (i) o sujeito é a expressão do "sintoma", assim como descreve Lacan ao tratar do significado da obra "Finnegans Wake" em relação ao seu autor, James Joyce; ele é a própria manifestação de um espaço universal de natureza patológica que, inevitavelmente, sofre, se não por qualquer outra razão, que seja simplesmente pela infalibilidade da morte e (ii) a origem dessa condição miserável é o desejo, que torna a vida possível, que torna a morte inescapável.
Mas e quanto a esse desejo, seria possível ultrapassá-lo?