quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Fantasia

Essa semana, eu encontrei um aconchego, um abrigo nas minhas memórias da infância. Lembrei de uma crônica da Denise Fraga para a revista Crescer (editora Globo) em que ela fala que só quem chupou bico na infância pode entender o prazer isso. Eu não lembro da delícia de um bico, mas outras lembranças da infância me trazem um prazer inigualável, a fantasia das minhas brincadeiras... Montava uma casa inteira com livros e vasilhas de cozinha que serviam de piscina. Os personagens eram bem diversificados e faziam parte de uma estória criada pela minha imaginação. Eu passava o dia dentro de um contexto totalmente alheio ao mundo real ao meu redor. Tive uma infância maravilhosa, com muitos amigos e brincadeiras de rua, coisa que está se perdendo na sociedade atual. A violência restringe muito a liberdade das crianças, mas aquele meu mundo particular era inigualável, tinha um sabor diferente.

Outro dia minha mãe comentou de forma nostálgica que eu esquecia do mundo brincando com aquelas miniaturas, e junto com a nostalgia dela veio a minha. Tenho essa lembrança como um aconchego, o mesmo aconchego que senti ao assistir Anarquista Graças a Deus (essa semana). História baseada em um livro que li lá pelos meus treze anos, que se materializou em vídeo, e eu me senti abraçada pela doçura do meu passado.

O tempo passou e agora o enredo é outro, o passado não cabe, mas o encanto da lembrança é divino e no faz sentir vivos diante de uma história. Lembro das histórias da juventude do meu pai. Isso animou os natais da nossa casa e dá uma certa identidade, uma referência de quem são meus pais, meus avôs, como viveram, o que construíram ...

Hoje, exercito a minha imaginação escrevendo histórias infantis, algo diferente, a realidade vista com olhos de fantasia. Preciso disso para respirar melhor. Exercito também observando minha filha que vive em um mundo doce e terno da infância. Uma época em que nossos pais ainda são super heróis e diante deles nada pode nos atingir. Longe dos conflitos da adolescência em que esses mesmos super heróis podem se tornar nossos maiores inimigos e que não sabem nada da vida, mas acham que podem nos proteger. Tudo na verdade é uma grande bobagem que depende de ponto de vista. Todos nós somos feitos de carne e osso e o melhor mesmo é ser visto como GENTE, às vezes frágil, às vezes forte, mas GENTE, com qualidades e defeitos e, como todo e qualquer ser humano, longe da perfeição. Como essa é uma realidade da maioria, aproveito, agora, diante da minha filha de dois anos, a minha posição de super herói.

Uma nota: A fantasia é uma boa herança de nossa infância, na medida certa, aproveitamos dela inclusive pra nos proteger, pra colorir um pouco a realidade, às vezes chata, às vezes doída, às vezes até normal, mas a fantasia dá um novo sabor. Entre nesse universo dos teus filhos, te aproxima do mundo em que eles vivem, diverte e por uns instantes torna a vida mais agradável.

Recomendo A MADILÇÃO DA MOLEIRA, AUTORA- ÍNDIGO.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Frida

Não é preciso entender de arte para amar Frida Kahlo. Eu apenas admiro alguns pintores e escultores sem pretensão de ser uma grande entendedora desse tipo de trabalho. Há alguns anos, li O Diário de Frida Kahlo e por meio dele tive contato com seus quadros. Acho que me apaixonei pela sua história antes de apreciar o seu trabalho. Tive um olhar especial pra todo o sofrimento de uma vida, um acidente trágico e um amor dolorido como uma ferida exposta. Ao ler Cartas apaixonadas de Frida Kahlo, minha falta de apreço por Diego Rivera se acirrou. Como eu odiei a criatura por ser tão infielmente cruel. Chegou a se relacionar com a irmã de Frida. Como, diante de tão famigerada dor física, ela ainda se apaixonou por ele?

Assim que foi lançado no cinema, assisti Frida, não gostei, saí de lá frustrada porque não conseguiram transmitir nem um terço do tamanho sofrimento passado por ela. Anos depois, tive que encarar novamente o filme para participar de um debate promovido pela Intersecção Psicanalítica do Brasil, no auditório da Cultura Francesa em Brasília. Não sei o que mudou... vi tudo aquilo com outro olhar, talvez porque os livros estavam menos frescos na minha memória. Reafirmei ali o grande amor pela obra dela. Um dos atenuantes do filme foram as cores fortes, tão características do México, e os quadros lindíssimos retratados por ela. Aquelas cores retratam uma alegria inerente a Frida, mesmo com os dois acidentes da vida dela (como Frida mesma diz), o Bonde e Diego, sendo esse último o pior deles.

Cheguei a recusar a posição dela quando quis casar-se com Diego. Vi Frida, ali, no lugar da pessoa comum, na posição romântica de que o amor dela vai modificar o outro. Ele deixando bem claro ser o infiel que era, e ela disposta a aceitar e possivelmente transformá-lo. Acho até que ela conviveu bem com a relação aberta que eles viviam, só não pôde suportar quando ele ultrapassou os limites se relacionando com a irmã de Frida.

Vejo isso constantemente no dia a dia do outro, seja no consultório ou com pessoas próximas do meu convívio. A coisa da modificação do outro, tipo “comigo será diferente”. Esqueci, diante da minha não aceitação, que Frida era de carne e osso, ser humano como outro qualquer. Cresci ouvindo e assimilei muito bem quando minha mãe falava constantemente: “ninguém muda ninguém”. Mais tarde, reafirmei na psicanálise que a mudança tem que vir de nós para abrigar o outro ser com seus defeitos e qualidades, se estivermos dispostos a amar este outro por completo. Não que a mudança não exista, ela pode ser real e plena, mas não deve haver uma expectativa em cima disso, devemos nos fiar naquilo que depende de nós e não o que podemos (ou não) produzir em alguém. Tudo é uma questão de ponto de vista, de repente o que pra nós é defeito, na verdade para o outro é qualidade e o faz feliz, não precisa ser modificado.

Uma outra coisa que aprendi com a maturidade é a questão dos casais que a nossos olhos são infelizes. Na verdade, eles podem ser bem felizes dentro da neurose em que vivem, e precisam disso pra viver ou sobreviver.

Depois de ver esse filme pela segunda vez, entendi o amor de Frida por Diego. Ela sabia quem ele era quando se envolveu, sabia da infidelidade que era característica dele e ele não fazia a menor questão de parecer diferente, foi verbalmente declarado a ela antes do casamento. Frida Kahlo não seria Frida Kahlo sem Diego Rivera. Ele amava os quadros dela, sabia que com todo seu dom e competência não conseguiria nunca transmitir o que ela transmitia através da pintura. Ele pintava o concreto e ela o seu próprio intimo. Ele valorizava a mulher, a pintora, a personalidade. Quando ela estava no fim da vida, já com dedos amputados e a depressão tomando o lugar da sua tão admirável alegria, ele estendeu a mão e ressaltou a precisão dela na vida dele. Ela o repeliu achando que era um ato de piedade com a pessoa dela e não aceitava esse tipo de sentimento, mas ele deixou bem claro que a necessidade era dele de tê-la por perto.

Antes de tomarmos as dores de nossos amigos, filhos, ou seja lá quem for, devemos procurar entender e aceitar a escolha do outro. Diego ganhou alguns pontos comigo depois que fiz uma segunda leitura desse filme, uma leitura muito mais madura da posição dele na vida de Frida Kahlo. Na verdade, o grande amor de Frida não podia ser algo normal e comum, tinha que ser mesmo alguém como Diego Rivera. Nem eu, nem vc, nem qualquer outro pode recusar acreditar nesse amor. Afinal, ela é a grande protagonista da história, ela o aceitou como ele era, nada foi camuflado para iludi-la. Ela abriu a guarda da sua própria vida para que ele entrasse e de alguma forma a fizesse feliz.