segunda-feira, 17 de novembro de 2008

CIÚMES

Tenho visto algumas palestras sobre ciúmes. Confesso que todas elas deixam a desejar. Falta uma visão psicanalítica mais profunda, mais arraigada sobre o início, quando tudo começou. Como era a relação com os pais? De onde vem o conceito de posse, do ser MEU? Onde esse ciúme se transformou em algo patológico? Onde residem suas inseguranças, sua baixa auto-estima? Até onde vai a ilusão de que se pode reter o outro?

Dificilmente eu conseguirei, em um breve texto, abranger tudo, mas vamos tentar alcançar alguma coisa mais do que se expõe por aí. As pessoas se referem muito aos ciúmes de relações amorosas, que existem e estão bem evidentes no dia a dia, mas eu quero deixar bem claro que esse tipo de ciúmes é reflexo de problemas já preexistentes, principalmente na vida familiar. Além desse trivial, existem os ciúmes de mãe, pai, filha, madrasta, amigos, e estes podem ser tão patológicos quanto os de um homem e uma mulher e suas relações. Uma criança diante de um pai ausente pode, conseqüentemente, passar uma vida tentando conquistar o pai, em vão, e as suas frustrações podem remeter a uma insegurança na conquista do marido, que nunca vai conseguir se mostrar conquistado, nunca vai conseguir passar a segurança necessária para a esposa devido ao grande buraco deixado por seu pai. Um filho que foi abandonado pela mãe, ou pelo pai, pode fantasiar que aprisionando, vigiando constantemente o outro não sofrerá outro abandono. Um Édipo não castrado pode criar um quadro grave de ciúmes. Estou apenas apresentando quadros hipotéticos sobre como os problemas podem ter uma raiz mais profunda do que superficialmente é mostrado. Pessoas podem passar por estes problemas e ter outros tipos de reações, simbolizar de forma devida os seus significantes, ou até mesmo criar outras patologias, uma fobia por exemplo.

O ciúme é algo que, dependendo da intensidade, pode fazer com que as pessoas cometam até crimes em seu nome, como se vê nos noticiários sobre enteadas mortas pela madrasta, ou namorados que matam namoradas, ou ex-namoradas que matam as atuais. E não se pode deixar de analisar o grau de patologia que têm também as pessoas que se submetem a essas relações doentes, durante anos. Estando sempre diante de situações constrangedoras e destrutivas que o parceiro ciumento normalmente expõe. Há uma necessidade de se sentir possuído pelo outro? Há uma ilusão de que se sente amado? (É bom frisar que isso não se trata de amor.)

Pode-se observar também que os ciumentos têm necessidade de reter o outro na relação, mas isso se estende a outros campos, que podem ser coisas materiais, dinheiro ou até mesmo apego a pequenas coisas que a outros olhos seriam insignificantes. Alguns autores defendem até retenção de fezes, mas eu nunca comprovei isso na clínica.

Como é ter ciúmes de uma criança? O amor pela mulher e pelo filho são diferentes, ocupam espaços diferentes na mente, no corpo e no coração. Mas a carência do outro é tão profunda e pulsa de forma tão intensa que o mínimo dado ao outro é inadmissível pra olhos que tem tanta fome de afeto, um oco, um vazio. Como se explica também o ciúme de mãe em relação à filha com amigos, marido, não envereda pelo campo destinado ao amor materno, mãe é mãe, não é amiga. São lugares diferentes no âmbito das relações sociais. Jamais contaríamos à nossa mãe o que contamos às nossas amigas. Isso é normal, é saudável. Existem por aí relações de mães amigas, mas é exceção, não é regra, e uma das duas pode ter problemas por causa disso.

E pra fechar nosso “post” de hoje, existe também o ciúme saudável, que reativa a relação e do qual ninguém está livre. É aquela pontinha que atiça, mas logo o outro consegue estancar com demonstrações de amor que nos trazem o aconchego da segurança e o mais importante... nos satisfazem.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Memória

Assisti novamente ao filme Brilho eterno de uma mente sem lembrança. Desde que assisti pela primeira vez, fiquei instigada a escrever algo. Ele é muito interessante e propõe muitas discussões em volta do assunto tratado.
Para quem não viu:
Sinopse
Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formavam um casal que durante anos tentaram fazer com que o relacionamento entre ambos desse certo. Desiludida com o fracasso, Clementine decide esquecer Joel para sempre e, para tanto, aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele. Após saber de sua atitude Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, Joel também se submete ao tratamento experimental. Porém ele acaba desistindo de tentar esquecê-la e começa a encaixar Clementine em momentos de sua memória os quais ela não participa.

Parece loucura, mas é bem real dentro da história de cada um. Diante de relacionamentos frustrantes e séries de decepções, deseja-se, muitas vezes, apagar algo que gostaria de não ter vivido, apagar da memória alguém que preferia não ter conhecido. Não se pode descartar a idéia de que o que se vive é sempre válido e, algum dia, tivemos bons olhos pra aquilo, algum dia aquilo teve sentido e foi importante, alguma coisa ganhamos, alguma coisa aprendemos.
Assim, construímos nossa história, com uma diversidade de pessoas que nos trazem alegrias e tristezas. A maioria das vezes, não agem como gostaríamos, mas o mundo é assim, feito de singularidades, e ninguém é igual a ninguém. Não podemos esperar do outro atitudes que tomaríamos porque a vida seria um seqüência de frustrações, cada um tem seus valores, suas crenças, suas escalas de prioridades. Devemos nos esforçar para sermos tolerantes diante do próximo e quando o fim (da relação) chegar, viver o luto da maneira mais doída, pois é a forma mais saudável de lidar com a situação. Tenha certeza que, quando chegar o fim do poço, aprenderá boas manobras para subi-lo. Então, não queiram perder seu histórico de memória em qualquer canto por aí, é um membro seu, talvez inativo, mas, algum dia, já foi muito útil. No filme, eles estavam tão cansados da fase ruim que estavam vivendo que foi preciso quase perder, ver que estava indo embora para lembrar que havia algo de bom. E aí segue em desespero por estar perdendo a memória, o que nos compõe, o que nos identifica como seres diferentes, singulares.

O que seria de nós sem nossas lembranças? É tão ruim quando algumas se apagam, muitas coisas foram trágicas no momento, mas arrancou boas risadas tempos depois. É tão bom ter o que contar, pois, por mais que seja triste, faz com que nos sintamos vivos, algo pulsa dentro de nós e molda, faz os contornos da nossa vida. Quando olhamos pra trás, não está vazio, não é oco. Pode até ser um castelo torto, mal acabado, mas é seu, é um pedaço da sua vida e não é igual à de ninguém, inclusive quem fez parte da sua história vai contar ela de forma diferente, são outro olhos, outros sentimentos investidos.



DEDICO ESTE TEXTO A TODOS QUE LAMENTAM UMA HISTÓRIA DO PASSADO...NÃO LAMENTEM, POR ALGUM MOTIVO AQUILO PRECISAVA SER VIVIDO.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

APENAS UMA NOTA....

Cada um de nós tem uma história particular e muito interessante para ser contada. São momentos únicos com pessoas e acontecimentos que se costuram e assumem grande importância em nossas vidas. Cada um tem uma forma de reagir àquilo que recebe da vida e assim formamos nossa personalidade, nosso caráter. Construindo nossa escala de prioridades com valores que evoluem ou são descartados no decorrer do caminho. Irmãos são criados na mesma casa, com pais que passam os mesmo preceitos para todos, mas o que cada um fará com aquilo que é recebido é o que rege a transformação de cada ser. O mesmo se dá com os acontecimentos. Duas pessoas podem passar pela mesma situação traumática (exemplo), mas esta terá impacto diferente nas pessoas.

Por acreditar nisso coloquei a frase da música de Almir Sater, divinamente interpretado por Maria Bethânia, na minha tese do curso de especialização em psicanálise:“Cada um de nós compõe a sua história, e cada ser em si carrega o dom de ser capaz, e ser feliz.”

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Fantasia

Essa semana, eu encontrei um aconchego, um abrigo nas minhas memórias da infância. Lembrei de uma crônica da Denise Fraga para a revista Crescer (editora Globo) em que ela fala que só quem chupou bico na infância pode entender o prazer isso. Eu não lembro da delícia de um bico, mas outras lembranças da infância me trazem um prazer inigualável, a fantasia das minhas brincadeiras... Montava uma casa inteira com livros e vasilhas de cozinha que serviam de piscina. Os personagens eram bem diversificados e faziam parte de uma estória criada pela minha imaginação. Eu passava o dia dentro de um contexto totalmente alheio ao mundo real ao meu redor. Tive uma infância maravilhosa, com muitos amigos e brincadeiras de rua, coisa que está se perdendo na sociedade atual. A violência restringe muito a liberdade das crianças, mas aquele meu mundo particular era inigualável, tinha um sabor diferente.

Outro dia minha mãe comentou de forma nostálgica que eu esquecia do mundo brincando com aquelas miniaturas, e junto com a nostalgia dela veio a minha. Tenho essa lembrança como um aconchego, o mesmo aconchego que senti ao assistir Anarquista Graças a Deus (essa semana). História baseada em um livro que li lá pelos meus treze anos, que se materializou em vídeo, e eu me senti abraçada pela doçura do meu passado.

O tempo passou e agora o enredo é outro, o passado não cabe, mas o encanto da lembrança é divino e no faz sentir vivos diante de uma história. Lembro das histórias da juventude do meu pai. Isso animou os natais da nossa casa e dá uma certa identidade, uma referência de quem são meus pais, meus avôs, como viveram, o que construíram ...

Hoje, exercito a minha imaginação escrevendo histórias infantis, algo diferente, a realidade vista com olhos de fantasia. Preciso disso para respirar melhor. Exercito também observando minha filha que vive em um mundo doce e terno da infância. Uma época em que nossos pais ainda são super heróis e diante deles nada pode nos atingir. Longe dos conflitos da adolescência em que esses mesmos super heróis podem se tornar nossos maiores inimigos e que não sabem nada da vida, mas acham que podem nos proteger. Tudo na verdade é uma grande bobagem que depende de ponto de vista. Todos nós somos feitos de carne e osso e o melhor mesmo é ser visto como GENTE, às vezes frágil, às vezes forte, mas GENTE, com qualidades e defeitos e, como todo e qualquer ser humano, longe da perfeição. Como essa é uma realidade da maioria, aproveito, agora, diante da minha filha de dois anos, a minha posição de super herói.

Uma nota: A fantasia é uma boa herança de nossa infância, na medida certa, aproveitamos dela inclusive pra nos proteger, pra colorir um pouco a realidade, às vezes chata, às vezes doída, às vezes até normal, mas a fantasia dá um novo sabor. Entre nesse universo dos teus filhos, te aproxima do mundo em que eles vivem, diverte e por uns instantes torna a vida mais agradável.

Recomendo A MADILÇÃO DA MOLEIRA, AUTORA- ÍNDIGO.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Frida

Não é preciso entender de arte para amar Frida Kahlo. Eu apenas admiro alguns pintores e escultores sem pretensão de ser uma grande entendedora desse tipo de trabalho. Há alguns anos, li O Diário de Frida Kahlo e por meio dele tive contato com seus quadros. Acho que me apaixonei pela sua história antes de apreciar o seu trabalho. Tive um olhar especial pra todo o sofrimento de uma vida, um acidente trágico e um amor dolorido como uma ferida exposta. Ao ler Cartas apaixonadas de Frida Kahlo, minha falta de apreço por Diego Rivera se acirrou. Como eu odiei a criatura por ser tão infielmente cruel. Chegou a se relacionar com a irmã de Frida. Como, diante de tão famigerada dor física, ela ainda se apaixonou por ele?

Assim que foi lançado no cinema, assisti Frida, não gostei, saí de lá frustrada porque não conseguiram transmitir nem um terço do tamanho sofrimento passado por ela. Anos depois, tive que encarar novamente o filme para participar de um debate promovido pela Intersecção Psicanalítica do Brasil, no auditório da Cultura Francesa em Brasília. Não sei o que mudou... vi tudo aquilo com outro olhar, talvez porque os livros estavam menos frescos na minha memória. Reafirmei ali o grande amor pela obra dela. Um dos atenuantes do filme foram as cores fortes, tão características do México, e os quadros lindíssimos retratados por ela. Aquelas cores retratam uma alegria inerente a Frida, mesmo com os dois acidentes da vida dela (como Frida mesma diz), o Bonde e Diego, sendo esse último o pior deles.

Cheguei a recusar a posição dela quando quis casar-se com Diego. Vi Frida, ali, no lugar da pessoa comum, na posição romântica de que o amor dela vai modificar o outro. Ele deixando bem claro ser o infiel que era, e ela disposta a aceitar e possivelmente transformá-lo. Acho até que ela conviveu bem com a relação aberta que eles viviam, só não pôde suportar quando ele ultrapassou os limites se relacionando com a irmã de Frida.

Vejo isso constantemente no dia a dia do outro, seja no consultório ou com pessoas próximas do meu convívio. A coisa da modificação do outro, tipo “comigo será diferente”. Esqueci, diante da minha não aceitação, que Frida era de carne e osso, ser humano como outro qualquer. Cresci ouvindo e assimilei muito bem quando minha mãe falava constantemente: “ninguém muda ninguém”. Mais tarde, reafirmei na psicanálise que a mudança tem que vir de nós para abrigar o outro ser com seus defeitos e qualidades, se estivermos dispostos a amar este outro por completo. Não que a mudança não exista, ela pode ser real e plena, mas não deve haver uma expectativa em cima disso, devemos nos fiar naquilo que depende de nós e não o que podemos (ou não) produzir em alguém. Tudo é uma questão de ponto de vista, de repente o que pra nós é defeito, na verdade para o outro é qualidade e o faz feliz, não precisa ser modificado.

Uma outra coisa que aprendi com a maturidade é a questão dos casais que a nossos olhos são infelizes. Na verdade, eles podem ser bem felizes dentro da neurose em que vivem, e precisam disso pra viver ou sobreviver.

Depois de ver esse filme pela segunda vez, entendi o amor de Frida por Diego. Ela sabia quem ele era quando se envolveu, sabia da infidelidade que era característica dele e ele não fazia a menor questão de parecer diferente, foi verbalmente declarado a ela antes do casamento. Frida Kahlo não seria Frida Kahlo sem Diego Rivera. Ele amava os quadros dela, sabia que com todo seu dom e competência não conseguiria nunca transmitir o que ela transmitia através da pintura. Ele pintava o concreto e ela o seu próprio intimo. Ele valorizava a mulher, a pintora, a personalidade. Quando ela estava no fim da vida, já com dedos amputados e a depressão tomando o lugar da sua tão admirável alegria, ele estendeu a mão e ressaltou a precisão dela na vida dele. Ela o repeliu achando que era um ato de piedade com a pessoa dela e não aceitava esse tipo de sentimento, mas ele deixou bem claro que a necessidade era dele de tê-la por perto.

Antes de tomarmos as dores de nossos amigos, filhos, ou seja lá quem for, devemos procurar entender e aceitar a escolha do outro. Diego ganhou alguns pontos comigo depois que fiz uma segunda leitura desse filme, uma leitura muito mais madura da posição dele na vida de Frida Kahlo. Na verdade, o grande amor de Frida não podia ser algo normal e comum, tinha que ser mesmo alguém como Diego Rivera. Nem eu, nem vc, nem qualquer outro pode recusar acreditar nesse amor. Afinal, ela é a grande protagonista da história, ela o aceitou como ele era, nada foi camuflado para iludi-la. Ela abriu a guarda da sua própria vida para que ele entrasse e de alguma forma a fizesse feliz.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Um pouco de mitologia

Mitologia é uma de minhas paixões, preciosa e antiga, um conhecimento que comecei a adquirir lá pelos meus 16 anos. São tantas versões que fico até com receio de ler algo novo e diferir da que conheço: a primeira versão, à qual fui apresentada e envolvida.

Os deuses da mitologia grega são tão humanos que os adotamos como pessoas próximas, tão sujeitos ao nosso julgamento como parentes que fazem parte da nossa história. Assim tomamos partido de uns, odiamos e maldizemos outros.

Nesta semana, tive oportunidade de ressuscitar uma questão antiga e acho que não é só minha: Perséfone realmente se apaixonou por Hades? Eu sempre defendi que sim. Um livro, A Deusa Interior de Roger J. Woolger e Jennifer Barker Woolger, caiu em minhas mãos e eu descobri que a deusa que predomina em mim é Perséfone. Logo, poderia falar dela de cadeira.

De acordo com meu parecer, não há como não se apaixonar por Hades. Ele é misterioso e interessante, dono de um reino rico em símbolos espetaculares. Este reino de Hades é, nada mais, nada menos, que o inconsciente... ou seja, o mundo dos mortos pra uns. Lá, guarda-se o que muitos gostariam que estivesse morto... mas o que se defende da morte afinal? A TRANSFORMAÇÃO; o inconsciente e seus significantes na verdade são a chave para transformação do ser.

Hades assusta muitos porque nem todos têm coragem de descer aonde vivem os mortos, ao mundo do inconsciente e resgatar a parte dolorida da história, pisar no escuro, ultrapassar o véu, não saber o que pode encontrar. Desbravar o inconsciente é como morrer, transformar, nascer pra outro mundo e, até mesmo, libertar-se. Hades é rei nesse mundo... como não se apaixonar? Talvez Perséfone nunca se apaixonaria por alguém cujo habitat é tão obscuro e, por não ser tão acessível, realmente é sujeito a julgamentos alheios que o transformem em um monstro desconhecido. Ela precisou ser raptada e conviver de perto para entender e apreciar a beleza de Hades.

Talvez o papel do psicanalista seja este... passear entre os dois mundos (consciente e inconsciente), como Perséfone.